José António Abreu @ 08:29

Ter, 22/11/11

Estranhámos porque Júlio sempre preferira raparigas gordas. De resto, antes havíamos estranhado essa sua preferência. E, já depois de nos habituarmos, permaneceu uma réstia de incompreensão. Éramos cinco desde o primeiro ano de universidade. Júlio, um tipo alto e magro (e muito peludo; quando, nos meses de calor, estudava em calções e blusa de alças lembrava uma tarântula) atirava-se sempre a raparigas gordas. «Por que raio é que as preferes?», perguntávamos-lhe. «É como aquela teoria sobre as feias – aplicam-se mais?» Ele sorria e dizia que não. Que era mesmo preferência. Que gostava de ver «as carnes a abanar». «Vocês nem imaginam o espectáculo que é uma mulher gorda a ter um orgasmo intenso.» Não era verdade: os trejeitos de horror que fazíamos deviam-se precisamente ao facto de nos encontrarmos a imaginá-lo. Mas Júlio estava-se nas tintas para as nossas reacções. Continuou sempre a andar com raparigas nunca menos que gordinhas e quase sempre inegavelmente obesas. Lembro-me de uma – Marta? Márcia? – que ria por tudo e por nada, e cujas gorduras tremiam tanto de cada vez que ria que eu não conseguia parar de a imaginar tendo um orgasmo. Era perturbador mas, ao mesmo tempo, ligeiramente excitante: as semanas em que Júlio andou com ela constituíram provavelmente o período em que estive mais perto de lhe entender a preferência. No início, algumas raparigas estranhavam o interesse dele mas Júlio acabava por convencê-las de que as achava atraentes – porque a verdade é que achava mesmo. O desconforto delas passava então a reflectir-se na forma como lidavam connosco, os amigos de Júlio, e com as nossas companheiras. Sei que a maioria não gostava de mim, achando-me pouco simpático. Eu não desejava transmitir-lhes essa ideia mas a verdade é que me sentia sempre ligeiramente desconfortável junto delas e isso fazia-me permanecer em silêncio, com ar comprometido. No fundo, tinha medo de dizer algo que revelasse a minha incompreensão, até porque muitas, sendo raparigas divertidas e inteligentes, não o mereciam. E depois havia sempre a tal questão do orgasmo – de cada vez que alguém contava uma piada e elas riam, eu não conseguia deixar de as imaginar nuas, tendo um orgasmo, o que me fazia parar de rir imediatamente depois de começar e ficar com uma expressão ainda mais comprometida. Elas tomavam a minha reacção por sobranceria, tendo algumas chegado a comentar com Júlio que eu não possuía sentido de humor. Debati o caso com alguns dos outros e eles diziam que sentiam e pensavam o mesmo mas, na minha opinião, disfarçavam melhor.

Entretanto terminámos os cursos, deixámos a universidade e passámos a encontrar-nos menos regularmente. Alguns de nós casaram. Júlio foi a cada casamento com uma rapariga diferente, sendo que nenhuma pesava menos de setenta quilos (ao meu, levou uma sorridente mulata cabo-verdiana com ancas à Oprah Winfrey e mamas que pareciam produto da imaginação de um cartoonista delirante; ainda se fala dela em qualquer reunião da minha família ou da família da minha mulher em que o tema do nosso casamento seja abordado). É por isso compreensível que, no momento em que Júlio nos apresentou Alice (num jantar marcado por ele, obviamente para ver a nossa reacção) e nos informou de que iam casar, tenhamos ficado de queixo caído. Alice é uma das raparigas mais atraentes que já conheci mas, tendo de altura um metro e sessenta e pouco, não pesaria então mais do que cinquenta quilos. Aproveitámos uma ida dela à casa de banho para atacarmos Júlio com a questão evidente. A resposta foi tipicamente inesperada: «Isto é o casamento, não é uma coisa para durar três ou quatro meses.» Ficámos a olhar para ele com ar ainda mais espantado. Perguntei: «E?» Júlio presenteou-nos com o sorriso condescendente que aprendêramos a conhecer bem na universidade. Gozou o momento deixando passar uns segundos antes de responder: «E, assim sendo, prefiro engordá-la eu. Reparem: se já gosto dela agora, vou gostar cada vez mais à medida que for engordando.» Houve outro instante de silêncio e depois um de nós, já não sei qual, perguntou: «E se não engordar?». Júlio sorriu de novo, ainda mais abertamente. «Não há hipótese. Podem ter a certeza de que vai engordar. Em primeiro lugar, quase todas engordam; em segundo, há a questão genética (vocês não conhecem a mãe dela); e, em terceiro, eu vou encarregar-me disso. E reparem: à medida que for engordando, vai recear que eu deixe de gostar dela. E eu vou garantir-lhe, com toda a sinceridade, que gosto cada vez mais. Vamos ter uma relação em que eu vou gostar cada vez mais do corpo dela, que é exactamente o contrário do que costuma acontecer nos casamentos.»

Ficámos estupefactos mas não encontrámos buracos na lógica dele. Ainda assim, houve quem duvidasse que fosse avante. Mas foi. Casaram há perto de três anos e, apesar de ser cedo para verificar se o plano dele dá certo, continuam juntos e aparentemente felizes. Até agora, Alice engordou cinco quilos e às vezes lamenta-se do facto. Júlio beija-a ou aperta-lhe a mão e diz-lhe para não se preocupar. Depois sorri e acrescenta: «Amo-te cada vez mais e a margem de progressão continua enorme.»




José António Abreu @ 21:41

Qui, 01/12/11

 

Reticências com vírgulas até que não ficam mal de todo...