<?xml version='1.0' encoding='utf-8' ?>

<rss version='2.0' xmlns:lj='http://www.livejournal.org/rss/lj/1.0/'>
<channel>
  <title>amor e morte em pequenas doses</title>
  <link>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/</link>
  <description>amor e morte em pequenas doses - SAPO Blogs</description>
  <lastBuildDate>Fri, 15 Apr 2016 21:04:20 GMT</lastBuildDate>
  <generator>LiveJournal / SAPO Blogs</generator>
<item>
  <guid isPermaLink='true'>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/sobrepressao-55-16276</guid>
  <pubDate>Wed, 20 Apr 2016 04:59:00 GMT</pubDate>
  <title>Sobrepressão (5/5)</title>
  <author>José António Abreu</author>
  <link>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/sobrepressao-55-16276</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Polícia. Questões em tom de voz neutral. Como se lhes fosse indiferente. Mais questões em tom de voz pressionante, até mesmo ameaçador. Como se soubessem. Mas não sabiam. Ele não tocara no homem. Nem sequer abrira a janela.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Exigiram que os acompanhasse à esquadra, um edifício feio, com o ambiente de um velho hospital de província, excepto pelo cheiro, mais indefinível embora não mais agradável. Quase duas horas em torno das mesmas perguntas, de preenchimento de papéis, de assinaturas. Finalmente mandaram-no embora.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Devagar, por entre o tráfego agora esparso, conduziu até casa.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Lamentava? Sentia remorsos? Honestamente, não. Sabia que devia sentir. Sabia que aquele homem, ainda que podendo ser estúpido e desprovido de civismo, não deveria ter morrido naquele momento, daquela forma. Teria família, colegas de trabalho, até mesmo amigos que, em resultado de apreço genuíno ou de auto-piedade (a morte dos que nos estão próximos é sempre um golpe contra nós), chorariam o seu desaparecimento. Ainda assim, recusou-se a sentir remorsos. Na sua raiva quotidiana, nos seus contactos diários com vítimas de acidentes, ganhara consciência da fragilidade e irrelevância da vida – de qualquer vida, incluindo a sua própria. Apenas umas quantas pessoas tão irrelevantes como o homem da Toyota chorariam a morte dele. O mundo continuaria a girar. As pessoas continuariam a sair para o emprego de manhã e a regressar a casa à noite. As estradas continuariam sobrelotadas. Aquele homem era tão importante como qualquer dos milhares de outros que naquele dia haviam morrido, em casa ou em hospitais. Tão importante como as dezenas ou centenas que tinham certamente falecido num atentado bombista algures no planeta. Tão importante como a velha que Raskolnikov assassinava em &lt;em&gt;Crime e Castigo&lt;/em&gt; – com a diferença de que ele não se deixaria submergir pelo remorso. Até mesmo pessoas famosas – que importância têm? Menos de 0,1% da população é verdadeiramente relevante – por boas ou más razões.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Claro que não ficara satisfeito. Nunca desejara &lt;em&gt;verdadeiramente&lt;/em&gt; matar alguém. Mas talvez o que mais o incomodasse era ver-se forçado a admitir – e tinha de o fazer porque detestava hipocrisias - que aquela capacidade, ambicionada durante anos a fio, deixara tão rapidamente de lhe dar prazer.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;No dia seguinte teve outro desentendimento com o chefe. Mais uma vez, o seu trabalho – talvez a única coisa que ele estava certo de fazer bem – era questionado, naquela forma aparentemente benigna que lhe dava volta ao estômago e o deixava com vontade de ver quão alto conseguiria gritar. Enquanto o chefe falava, debitando platitudes em tom seráfico, a raiva subia-lhe em ondas sucessivas das entranhas até à garganta e aos maxilares. A certa altura percebeu que evitava olhar o chefe de frente. Imaginou até os títulos das notícias: «Olhos Mortais», «Não deixe que este homem olhe para si», «O verdadeiro X-Men». Reprimiu um sorriso a custo e percebeu que a raiva quase desaparecera.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Mais tarde, regressando a casa, fez estoirar mais quatro pneus e sentiu-se bem.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Na rua, quatro homens jogavam futebol. Os veículos tinham de abrandar, por vezes de parar, enquanto os homens se desviavam. Numa dessas ocasiões, um dos jogadores fingiu ir pontapear a bola na direcção do carro. Pouco depois, um remate mal direccionado levou a bola a embater num veículo estacionado. Por trás do vidro, cerca de dez metros acima do nível da rua, ele ouviu o ruído do impacto – um som ressoante com uma componente metálica. Os jogadores continuaram como se nada tivesse sucedido. O carro dele estava a salvo mas, ainda assim, ele sentiu uma golfada de raiva. Imaginou-se a apontar um espingarda com silenciador à cabeça de cada um daqueles homens e a premir o gatilho. Plop. Plop. Plop. Plop. Viu Christopher Walken, n’&lt;em&gt;O Caçador&lt;/em&gt;, com sangue esguichando da cabeça. Depois apercebeu-se de que não se podia autorizar pensamentos daqueles. Agora eram demasiado perigosos. Podiam tornar-se realidade. Virou costas à janela.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Ligou o televisor. No ecrã surgiu a imagem de um repórter de pé numa rua onde tinha ocorrido um atentado. O repórter não sabia grande coisa do que se passara mas falava ininterruptamente porque em televisão – e cada vez mais na vida real - o silêncio não pode ser autorizado. Manteve-se a assistir durante um par de minutos mas depois sentiu a incongruência de tudo aquilo – de estar em pé no seu apartamento, defronte do televisor, de chinelos e t-shirt manchada de café, vendo uma não-notícia sobre acontecimentos verdadeiramente importantes (ou será que já nem sequer o eram?) – e desligou o aparelho. Permaneceu imóvel durante algum tempo. Do exterior, subiu o ruído de uma buzina de automóvel, a que se seguiu um coro de assobios e insultos. Resistiu à tentação de espreitar. A imagem do homem da Toyota caído no pavimento, com a face deformada pela surpresa e pela dor, assaltou-o mais uma vez.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Escorraçou a imagem, fechando os olhos e abanando a cabeça. Tentou decidir o que fazer. Qualquer coisa faltava – mais ainda agora que a televisão estava desligada. Olhou em volta. Música, livros, filmes, acesso à internet — tinha tudo isso mas nada parecia adequar-se. Devagar, dirigiu-se à casa de banho. Tentou urinar mas o fluxo saiu num espasmo e extinguiu-se. Guardou o pénis, puxou o autoclismo e voltou-se para o lavatório. Enquanto esfregava as mãos uma na outra, examinou-se no espelho. A imagem reflectida era claramente ele e, todavia, era também uma pessoa desconhecida, que mantinha segredos, ilusões, desapontamentos, fúrias e vergonhas que lhe escapavam – pior, que o enojavam. Olhou para os olhos daquela pessoa e percebeu, com uma nitidez assustadora, como ela lhe desagradava. Fechou a torneira e limpou as mãos. Inclinou-se para a frente, as mãos no rebordo do lavatório, o nariz quase a tocar o espelho. Olhou para o lado direito da cabeça, para a zona ligeiramente atrás e acima do olho. A artéria via-se – à justa – mas não pulsava. Era um canal discreto e delicado que o fez pensar num embrião – naqueles tecidos translúcidos que se vêem nas fotos de seres em desenvolvimento dentro do útero. Desconhecia o nome daquela artéria. Após o &lt;em&gt;incidente&lt;/em&gt; fizera menção de pesquisar mas esquecera-se. Continuou a olhar para ela, tão incongruentemente fina e vital. Tentou detectar a pulsação mas falhou. Os olhos começaram a arder-lhe mas resistiu ao desejo de pestanejar. Continuou a observar a artéria – anónima, indefesa – que insistia em desempenhar o seu papel com suave obstinação. A casa de banho começou a dissolver-se em torno dele. O lavatório a que as suas mãos se agarravam transformou-se numa mancha. Reais, &lt;em&gt;nítidos&lt;/em&gt;, eram apenas os seus olhos, à beira da ignição, e a pequena artéria na sua têmpora – ainda e sempre plácida, ainda e sempre indiferente. Receoso de não conseguir aguentar durante muito mais tempo, de ser derrotado pelo próprio corpo, fechou os olhos, tentando mantê-los imóveis por trás das pálpebras. Duas lágrimas, grossas e pesadas, deslizaram-lhe pelas faces. Respirou fundo, cerrou os maxilares, cravou as mãos no rebordo do lavatório e, antes da ardência desaparecer por completo, abriu novamente os olhos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/sobrepressao-55-16276</comments>
  <lj:replycount>0</lj:replycount>
  <category>sobrepressão</category>
  <category>contos demasiado longos para um blogue</category>
</item>
<item>
  <guid isPermaLink='true'>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/sobrepressao-45-15945</guid>
  <pubDate>Tue, 19 Apr 2016 04:58:00 GMT</pubDate>
  <title>Sobrepressão (4/5)</title>
  <author>José António Abreu</author>
  <link>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/sobrepressao-45-15945</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Arredores de outra cidade, o mesmo problema. Era hora de almoço, devia ter acontecido um acidente mais à frente. Sentado no carro, ele reparava como o fumo dos escapes conferia ao ar uma tonalidade cinzento-azulada. Buzinadelas de protesto faziam ricochete no interior da sua cabeça como bolas numa máquina de &lt;em&gt;flippers&lt;/em&gt;. Estava cansado. Passara a manhã a investigar um incêndio no pavilhão de uma fábrica de componentes plásticos para a indústria automóvel. O incêndio começara numa cabina de pintura que possuía um sistema automático de extinção. Como seria de esperar, este encontrava-se inactivo. Havia extintores no pavilhão mas, em vez de os usarem, os dois trabalhadores no local haviam fugido. E, muito embora a fábrica até desse ideia de estar bem organizada, a causa do incêndio resumia-se à justificação habitual: “Sabe como é, estas coisas acontecem.” O ponto positivo era todos os indícios apontarem para simples incompetência.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Não viu o Honda vermelho de imediato. Veio da direita, de uma rua secundária, no momento em que a fila começou a andar. Normalmente ele deixava entrar os veículos naquelas circunstâncias. Mas já se encontrava em movimento quando reparou no Honda. O seu aparecimento repentino até o assustou, fazendo-o guinar para a esquerda – mas não parar. O condutor do Honda apitou um protesto. Ignorou-o. Pelo retrovisor, viu o Honda entrar na fila imediatamente atrás do seu carro e, num movimento contínuo, sair dela para a desimpedida faixa da esquerda (algo natural para quem pretendesse virar à esquerda cem metros adiante). Quando o espelho retrovisor direito do Honda embateu com estrondo no espelho do lado esquerdo do carro dele, fazendo-o dobrar no sentido errado (mas, verificá-lo-ia depois, sem o partir), foi – outra vez – apanhado de surpresa. Era ilógico e irritante que ainda conseguissem surpreendê-lo mas a verdade é que ficou sem reacção durante um par de segundos. Depois rebentou o pneu traseiro direito do Honda vermelho, que já estava a mais de trinta metros e ainda ganhava velocidade.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;O Honda guinou bruscamente para a esquerda e embateu na divisória de betão. A traseira subiu e rodou no ar. O Honda deslizou de marcha-atrás contra a divisória ao longo de vários metros e parou. Seguiu-se uma pausa durante a qual o tempo pareceu ficar suspenso e depois várias pessoas saíram dos carros e correram para o Honda.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Ele deixou-se estar. Viu o condutor do Honda – um tipo de vinte e poucos anos, baixo, magro, barba por fazer, envergando calças e blusão de ganga – sair do carro, aparentemente sem ferimentos. Viu como o outro olhava na sua direcção. Suportou o olhar mas não sorriu. Tão depressa quanto pôde, saiu dali.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Ter o poder de causar acidentes graves era uma realidade que o perturbava. Certos actos mereciam punição – isso mantinha-se claro. Mas devia a punição incluir o risco de vida? E quanto a inocentes que pudessem ser atingidos? Até ao momento, rebentara pneus em situações de velocidade reduzida: tentativas de entrada em filas, utilização da faixa &lt;em&gt;bus&lt;/em&gt;, descrição de rotundas pelo exterior, paragem em cima de passadeiras, desprezo pelo semáforo vermelho...  Contudo, não era difícil imaginar um cenário de destruição numa auto-estrada: um automóvel (conduzido por uma daquelas pessoas que recusam usar as faixas da direita ou que começam a fazer sinais de luzes a duzentos metros de distância, por exemplo) descontrolado, guinchos de pneus em travagem, choques sucessivos – e, depois, corpos espalhados pelo asfalto, sirenes de ambulância, polícias tentando manter a ordem, bombeiros cortando chapa para retirar alguém preso dentro de um dos veículos…&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Não desejava aquilo. Apenas que os filhos da puta sem civismo sofressem um pouco. Teria de ser cauteloso.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;«Sentes-te bem?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Por causa do papel que desempenhava, o chefe achava-se na obrigação de fazer perguntas como aquela regularmente. Mas fazia-as com convicção nula. Muitas vezes, nem esperava pela resposta.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;«Ando cansado», respondeu ele, aceitando jogar a pequena charada. Poderia ter dito: «Estou óptimo», que o resultado seria o mesmo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;«Levas tudo demasiado a sério», disse o chefe. E depois: «Viste o Benfica?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;As duas faixas fundiam-se numa quarenta metros adiante. Toda a gente o sabia. Havia sinalização vertical. Havia marcações no pavimento, perfeitamente visíveis. E, todavia, muitos condutores ignoravam a fila já constituída – naquela altura, nem sequer muito comprida – e mantinham-se na faixa da direita até à zona da junção. Conseguiam ultrapassar quatros ou cinco carros, se tanto.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Ele parou no término da fila. Chegou ao ponto de aglutinação trinta segundos mais tarde. Havia um furgão Toyota na faixa da direita, meio carro à sua frente. Nem sequer tinha o pisca ligado. Ignorou-o e avançou. Ouviu uma buzinadela mas manteve os olhos no carro da frente. Naquele instante, não poderia dizer se o condutor da Toyota era novo ou velho, magro ou gordo, se tinha cabelo comprido ou era careca. Pelo retrovisor, viu a Toyota entrar na fila logo atrás do seu carro.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;A fila parou. Instinto ou experiência fizeram-no consultar novamente o retrovisor. Viu um vulto a abandonar o volante da Toyota. Pelo espelho da porta viu o homem – não muito alto, careca, gordo – aproximar-se. Sentiu um instante de pânico. Atabalhoadamente, verificou que a luz indicativa do trancamento das portas estava acesa. Quando o homem bateu no vidro, manteve o olhar fixo em frente. Isso pareceu apenas irritá-lo mais. Berrando se não o tinha visto, bateu com força no vidro e tentou abrir a porta. Finalmente, ele rodou a cabeça e olhou para o homem. Tinha a cara vermelha mas não a cabeça. A cabeça era branca. Vestia calças de ganga e um pólo com os botões desabotoados. O pescoço e a zona do externo eram tão vermelhos como a cara. Tinha poucos pêlos, excepto no nariz, e suava profusamente.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;«O que é que quer? Desapareça.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Foi um erro. O homem aumentou o tom dos insultos e bateu ainda com mais força na janela. Depois deu um pontapé na porta.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;A cabeça do homem tinha-o perturbado de imediato. Por causa da cor, da transpiração, dos pêlos no nariz e da artéria que pulsava na têmpora direita. Mais tarde, ele perguntar-se-ia se tinha mesmo sentido raiva suficiente para aquilo suceder. Se tinha – e claro que tinha; o resultado não deixava margem para dúvidas –, fora certamente mais difusa, menos consciente do que em qualquer outra situação anterior. Ter-se-á visto a sair do carro e a pregar um murro na cara do outro homem; ter-se-á visto a pontapeá-lo enquanto ele se encontrava no chão; nunca se imaginou a rebentar-lhe a artéria.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Não houve esguicho de sangue. Apenas dor súbita na cara do homem, que se agarrou à têmpora direita, emitiu um grito estranhamente agudo e tombou no pavimento.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Ele permaneceu dentro do carro, ouvindo o homem gritar. Após uma mão-cheia de segundos, viu-o levantar-se, agarrado aos &lt;em&gt;rails&lt;/em&gt; de metal que delimitavam a via a partir daquela zona, e tentar correr na direcção da carrinha. Viu-o cair quase de imediato.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Abriu a porta e saiu. Evitando olhar para o homem, fazendo um esforço para se abstrair dos gritos, marcou 112 no telemóvel. O veículo do INEM demorou vinte minutos a chegar. O homem já estava morto.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;&lt;em&gt;(Continua amanhã...)&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/sobrepressao-45-15945</comments>
  <lj:replycount>0</lj:replycount>
  <category>sobrepressão</category>
  <category>contos demasiado longos para um blogue</category>
</item>
<item>
  <guid isPermaLink='true'>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/sobrepressao-35-15679</guid>
  <pubDate>Mon, 18 Apr 2016 04:57:00 GMT</pubDate>
  <title>Sobrepressão (3/5)</title>
  <author>José António Abreu</author>
  <link>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/sobrepressao-35-15679</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Jantou uma lata de atum com meia lata de feijão frade. Misturou tudo, acrescentou azeite, levou dois minutos ao microondas. Lavou prato, copo e talheres, e sentou-se na sala, pequena e demasiado cheia, com o portátil e um livro pousados no sofá ao seu lado. Forçou-se a ver as notícias. Depois fez &lt;em&gt;zapping&lt;/em&gt;. Encontrou novelas, &lt;em&gt;reality-shows&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;talk-shows&lt;/em&gt;, debates sobre arbitragens e foras-de-jogo de jogos de futebol, séries, um ou outro filme. Pensou que nessa noite já ingerira enlatados suficientes (a ironia fê-lo sorrir) e desligou o televisor. Lembrou-se de um velho tema de Bruce Springsteen (&lt;em&gt;57 channels and nothin’ on&lt;/em&gt;), lançado numa época em que a televisão portuguesa apenas tinha dois canais, e recordou a sua ingenuidade ao pensar que o Boss estava maluco: com 57 à disposição, como seria possível nada de interessante estar a dar? Ainda pensou em colocar o CD no leitor mas a ideia rapidamente lhe surgiu como pueril. Tentou trabalhar mas descobriu que não conseguia concentrar-se. A certa altura, começou a ouvir pancadas, risos e o som de uma televisão no apartamento de cima. Conhecia mal as pessoas que lá viviam. Um casal de trinta e tal anos, sem filhos – por enquanto. Tornou a ligar o televisor mas os sons provenientes do outro apartamento subsistiram. Ficou a ouvi-los, olhando para o ecrã sem tentar extrair sentido das imagens mas mudando frequentemente de canal. Foi deitar-se perto da meia noite.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Acordou com dor de cabeça. O mais pequeno movimento fazia o cérebro pulsar uma onda de dor. A descida para o nível das garagens, no elevador que arrancava e parava com safanões e um estoiro metálico, deixou-o nauseado. O ruído do motor do carro era suficientemente abafado para não o incomodar mas o rádio renasceu numa explosão sonora que o entonteceu. Desligou-o com uma pancada, manobrou por entre os pilares e pela rampa acima, avançou para o término da fila.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Progrediu no pára-arranca habitual durante dez minutos, vendo carros dar o golpe duzentos, depois cem, depois cinquenta metros à sua frente. Atingiu por fim a zona de combate. Como habitualmente, colou a frente do carro à traseira do que o precedia – uma carrinha Mitsubishu conduzida por uma mulher que passava a mão no cabelo a cada cinco segundos. A primeira tentativa surgiu de imediato. Resistiu. Suportou uma segunda. A terceira foi mais agressiva – como se o outro condutor estivesse disposto a causar um acidente para entrar na fila (e quem sabe? Talvez estivesse). Agarrou o volante com força, pressionou a buzina, resmungou “Filho da puta” e assestou o olhar no pneu dianteiro do lado direito do outro carro. O estoiro foi imediato. Como na véspera, a frente do veículo teve um breve movimento ziguezagueante – quase parecia uma reacção de surpresa – e depois imobilizou-se.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Desta feita não houve paz. Apenas júbilo selvagem – que demonstrou, rindo abertamente ao ultrapassar o outro carro.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Não podia ser coincidência. Não duas vezes. Depois de se acalmar, perguntou-se o que diabo estaria a acontecer. Sentiu-se mesmo – agora sim – um pouco assustado. Mas rapidamente decidiu que não havia forma de chegar a uma conclusão racional – e, por conseguinte, a atitude mais racional era nem sequer tentar encontrá-la. Iria apreciar – e utilizar plenamente – este &lt;em&gt;poder&lt;/em&gt; durante tanto tempo quanto lhe fosse possível. Quando desaparecesse, encolheria os ombros e seguiria em frente. Até lá, obrigaria aqueles filhos da puta a pagar caro todas as tentativas de fazerem dele um idiota. Raiva era a resposta – bruta, não diluída, &lt;em&gt;honesta&lt;/em&gt;. Era isso que tinha de sentir ao olhar para aqueles pneus.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;A facilidade era desconcertante. Na manhã seguinte deixou quatro carros com pneus rebentados no acesso à via rápida. Os condutores faziam perguntas uns aos outros e pesquisavam o pavimento em busca de objectos cortantes. Ele tinha vontade de rir e, por momentos, não foi capaz de o evitar. Apenas os condutores à sua frente na fila, que haviam abrandado para ver o que se passava, lhe estragavam ligeiramente a disposição.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Aprendeu depressa a controlar a raiva. Em poucos dias, funcionava quase sempre. Cerrava os dentes, assestava os olhos no pneu e apertava o volante como se este fosse o pescoço do outro condutor. A tensão no maxilar originava uma pressão nas têmporas que se desvanecia logo após o rebentamento.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Disseminada pelos boletins radiofónicos de informações de trânsito, na semana seguinte a estranheza começara a instalar-se Não passava um dia útil sem que rebentassem pneus naquele acesso. Na quarta-feira, havia polícia no local. Mas, com a presença da polícia (dois motociclistas entroncados com o olhar duro de quem deseja fazer jus ao uniforme), menos condutores tentaram dar o golpe e nenhum o fez perto dele. Todos os pneus passaram incólumes nessa manhã. Na seguinte, porém, cinco condutores tiveram de parar, perder tempo e sujar as mãos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;«Sentes-te bem?», perguntou Sara, parando junto à secretária dele.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Clicou no ícone &lt;em&gt;save&lt;/em&gt; e ergueu os olhos para ela. Rodou o pulso, que desde há um par de anos lhe doía sempre que passava uns minutos a utilizar o rato. O estalo não fez abrandar a dor.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;«Tão bem como noutros dias. Porquê?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Sara vestia uma saia que terminava acima dos joelhos. Era uma má escolha para alguém com a idade - e especialmente o peso – dela.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;«Tens andado... não sei, quase feliz. Ainda mais maníaco do que o habitual mas quase feliz.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;«E isso é mau?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;«Não. Não. Não sei.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Ele tentou olhar para ela como se fosse a primeira vez que a via. (Era um exercício a que se entregava com frequência. Tentar re-adquirir uma primeira impressão de pessoas que conhecia há muito. Era também um exercício que, pela inutilidade, o irritava ligeiramente.) Perguntou-se se ela ainda lhe era atractiva, não obstante tudo o que sucedera entre ambos. Surpreendentemente, a resposta era positiva e gerava nele sentimentos de vergonha e desprezo – por ela mas ainda mais por ele.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;«Tenho de acabar este relatório. Mas obrigado pela preocupação.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;«Não estou preocupada contigo.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;«OK.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;«Até pareces mais bem disposto.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;«Impressão tua.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Ela hesitou. Depois moveu o corpo todo para encolher os ombros e foi-se embora.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;&lt;em&gt;(Continua amanhã...)&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/sobrepressao-35-15679</comments>
  <lj:replycount>0</lj:replycount>
  <category>contos demasiado longos para um blogue</category>
  <category>sobrepressão</category>
</item>
<item>
  <guid isPermaLink='true'>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/sobrepressao-25-15380</guid>
  <pubDate>Sun, 17 Apr 2016 04:56:00 GMT</pubDate>
  <title>Sobrepressão (2/5)</title>
  <author>José António Abreu</author>
  <link>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/sobrepressao-25-15380</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Trabalhava numa empresa de investigação de causas e avaliação de danos de acidentes, quase sempre contratada por companhias de seguros. Diariamente, visitava locais afectados por incêndios, inundações, acidentes de trabalho graves, roubos. Falava com as vítimas – pessoas sem um braço, queimadas ou paralisadas –, com os colegas delas, com os patrões e com os familiares. Para todos eles, representava o inimigo. O indivíduo que, na sequência de uma infelicidade, vinha procurar formas de lhes recusar aquilo a que julgavam ter direito. Enfrentava essas situações com a mesma predisposição com que enfrentava o trânsito. Tinha uma tarefa a desempenhar e desempenhá-la-ia bem. Com cortesia e firmeza. Buscando factos. Recusando ser afectado por emoções. Este modo de conduta não tornava o processo indolor mas, no início da carreira, aprendera que estabelecer outro tipo de relação só dificultava o processo. Nem mesmo quando procurava levar as pessoas a dizerem-lhe o que provavelmente deveriam calar fingia amizade. Certas formas de actuação pareciam-lhe indignas. Pelo contrário, insistir, apontar contradições, ameaçar com as consequências de teimar numa mentira, esses constituíam procedimentos aceitáveis - e ele usava-os melhor do que ninguém.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Estava consciente de que era um trabalho de merda. Mas, nos cinquenta e dois anos que levava de vida, ganhara experiência suficiente para saber que quase todos são.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;O chefe queria discutir o último relatório dele. Não porque tivesse erros (umas quantas acções de formação e pelo menos outros tantos livros sobre gestão de recursos humanos faziam o chefe começar todas as críticas com paliativos) mas porque desejava estar bem preparado ao apresentá-lo ao cliente. E porque achava que ele fora demasiado taxativo nas conclusões. «Estamos basicamente a chamar aldrabão ao sinistrado.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;«É o que ele é.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;O sinistrado era um empresário com três empresas do sector da cortiça, que andara a retirar material de uma delas antes da ocorrência de um incêndio. Não fora possível provar a natureza fraudulenta do incêndio mas ficara imediatamente óbvio que as quantidades de cortiça, de rolhas e até mesmo de equipamento (quão estúpido era preciso ser para retirar do local duas máquinas de escolha de rolhas e depois exigir que a seguradora as pagasse?) eram muito inferiores às reclamadas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;«Ele devia ser preso.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;«Talvez. Mas uma coisa é fornecer dados que permitam à seguradora decidir, outra é praticamente decidir por ela.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;«Ninguém está a decidir por ela. No relatório só se referem as inconsistências nas quantidades e as declarações de testemunhas que viram veículos levar cortiça das instalações no fim-de-semana anterior.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Os olhos do chefe mostraram resignação por ter que lhe explicar novamente certas evidências. «É demasiado taxativo. Não deixa margem à seguradora…»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;«E porque devia deixar? Há lá alguém com interesse em que o sinistro seja pago rapidamente, sem ondas?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Nos olhos do chefe, a resignação passou a irritação.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;«Sabes bem que não é isso. Fazê-los levar para tribunal um caso que lhes vai custar dinheiro e que acabarão por perder só vai levá-los a confiar menos em nós no futuro. E depois há as idas a tribunal que isto vai implicar. Não ganhamos dinheiro por ir a tribunal.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Sentiu-se insultado, depois relaxou. Não valia a pena. «OK, amanhã trato disso.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;«Prometi entregar o relatório hoje.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Levantou-se da cadeira. «Vai ter de adiar. Tenho pouco mais de três horas para fazer duzentos quilómetros – e comer qualquer coisa.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;«Dá tempo. Fazes as alterações em dez minutos.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;«Não num relatório desta importância, quando posso ter de ir a tribunal defender o que escrevi. Trato do assunto amanhã de manhã. »&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Era sempre assim: resistia apenas para adiar o inevitável. Saiu, deixando o chefe a remoer o compromisso. Sara fê-lo parar. «Tens um minuto?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Sara era a administrativa da empresa. Dava apoio ao chefe, aos três técnicos permanentes e a quaisquer outros contratados a recibo verde. Quarenta e poucos anos de idade, um metro e sessenta e cinco, divorciada, sem filhos. Uma dezena de quilos em excesso agrupados no tronco e nas ancas (a cara era surpreendentemente magra), cabelo pintado num tom de castanho que a embalagem juraria ser louro. Prolongava a última palavra de cada frase, fazendo tudo o que dizia soar a queixumes.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Dois anos antes, haviam tido uma relação. Em menos de um mês, estavam fartos um do outro. Sara descobrira nele os aspectos que ele sempre julgara estarem bem à vista (a intransigência, a falta de sociabilidade), ele surpreendera-se com quão desinteressante, carente e desorganizada ela era. A relação deixara um efeito de estranheza e ressentimento, que se manifestava sempre que a conversa se desviava do plano estritamente profissional.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;«Não posso, estou atrasado. Tem que ser agora?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Ela hesitou.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;«Não, deixa estar. Conduz com cuidado.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;«Sempre. Até amanhã.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Recolheu a pasta que deixara junto à secretária e saiu.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;No final da tarde, ao regressar a casa, não resistiu e tentou de novo. O dia acabava tão cinzento como começara mas já não chovia. Nas três faixas da auto-estrada, o trânsito avançava cem metros de cada vez e depois parava repentinamente. Quando um miúdo num &lt;em&gt;Focus&lt;/em&gt; com jantes pretas e ponteira de escape sobredimensionada fez uma diagonal da faixa da direita para a da esquerda, acabando dez ou quinze metros adiante do carro dele, parado na faixa do meio, fez o que fizera de manhã: olhou para o pneu traseiro direito do outro automóvel e desejou que rebentasse. Nada aconteceu. Verificou que a sua faixa continuava parada e tentou novamente, obtendo o mesmo resultado. Sentiu-se ridículo e zangado. Quando a faixa central avançou, o rapaz no &lt;em&gt;Focus&lt;/em&gt; saltou para ela e, depois de ultrapassar um monovolume, regressou à da esquerda. Ele resistiu à vontade de fazer uma terceira tentativa e conduziu até casa com a raiva borbulhando-lhe na garganta.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;&lt;em&gt;(Continua amanhã...)&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/sobrepressao-25-15380</comments>
  <lj:replycount>0</lj:replycount>
  <category>contos demasiado longos para um blogue</category>
  <category>sobrepressão</category>
</item>
<item>
  <guid isPermaLink='true'>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/sobrepressao-15-15239</guid>
  <pubDate>Sat, 16 Apr 2016 04:55:00 GMT</pubDate>
  <title>Sobrepressão (1/5)</title>
  <author>José António Abreu</author>
  <link>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/sobrepressao-15-15239</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Ficou estupefacto, da primeira vez que aconteceu. Não se assustou, ou pelo menos não muito; ficou apenas estupefacto. Como acreditava em explicações lógicas — como &lt;em&gt;dependia&lt;/em&gt; de explicações lógicas — disse a si mesmo que fora uma coincidência. Mas não conseguiu evitar um sorriso de vitória ao passar pelo quarentão engravatado que olhava para os restos do pneu do carro com ar de surpresa e irritação.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Acordava todas as manhãs para um mundo de filhos da puta. Pior: levantava-se da cama e ia juntar-se-lhes. Trinta segundos após sair de casa estava mergulhado no trânsito, enfrentando picos de violência que normalmente apenas no final do dia eram igualados — mas nunca ultrapassados. Pensava: as pessoas fazem questão de começar o dia da pior forma possível. Depois: talvez seja uma estratégia; a aberração do trânsito matinal imuniza para o que quer que possa correr mal durante o resto do dia. Mas claro que não imunizava e ele sabia-o por experiência própria: com o emprego que tinha, algo corria sempre mal.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Vivia na periferia, num prédio de cinco andares. Se o carro não lhe fosse indispensável para o trabalho, deixá-lo-ia em casa – muito embora a ideia de passar três quartos de hora no interior de um autocarro, entalado entre guarda-chuvas molhados e sovacos mal-cheirosos, todas as manhãs e todas as tardes, ter força suficiente lhe causar vómitos. Ponderara deixá-lo estacionado junto à sede da empresa – um espaço de pouco mais de cem metros quadrados num prédio velho do centro da cidade – mas o risco de roubo ou de vandalismo era-lhe inaceitável. Apesar do cuidado que tinha na escolha dos locais onde o estacionava, a pintura já sofrera vários riscos e pancadas. O carro constituía uma das poucas âncoras que possuía – funcionava quase sempre do modo esperado; pedia pouco; tinha avarias que, como um osso partido no corpo humano, eram fáceis de entender – e não merecia ser abandonado à sorte.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Todas as manhãs, a selvajaria começava a poucas centenas de metros de casa, no acesso àquilo que apenas total inconsciência ou improvável humor negro permitira baptizar “via rápida”. Ele posicionava-se na faixa da direita, no término de uma fila com cerca de trezentos metros de comprimento. Soluçava em frente, tentando manter uma distância mínima para o veículo que o precedia – e a calma. Não era fácil, especialmente ao chegar à zona onde numerosos condutores procuravam forçar a entrada na fila. Ele nunca — nunca — deixava entrar alguém. Também nunca forçava a entrada em fila alguma. Nos cinquenta mil quilómetros que fazia anualmente, apenas erro ou distracção o poderiam levar a realizar um acto condenável. Naquela primeira fila do dia, como em muitas outras subsequentes, quem agia daquele modo estava a tentar ganhar dez minutos à custa dos restantes. Isso era-lhe inaceitável. Homens, mulheres, gordos, magros, bonitos, feios, conduzindo veículos caros ou baratos — ninguém entrava. Por vezes, fazia questão de olhar os condutores nos olhos, num esforço (que sabia inglório) de tentar fazer passar a sua posição — de intransigência mas, acima de tudo, de justiça. Gestos ou sorrisos pedindo um favor já não resultavam — sinais de hipocrisia, nada mais.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Chovia ligeiramente, naquele final de Março. Uma morrinha tão suave que era quase nevoeiro. O pisca do BMW preto lembrava uma sequência de fósforos apagados pela chuva logo após o clarão inicial. O BMW permaneceu ao lado e ligeiramente à frente do carro dele até a fila avançar e depois começou também a mover-se — mas ele foi mais rápido e não permitiu a criação de espaço suficiente. O homem no BMW percebeu que não valia a pena insistir — na estrada, certos sinais são inconfundíveis, mesmo sem contacto visual ou troca de palavras — e avançou alguns metros para tentar a sorte junto do condutor do veículo seguinte — um homem gordo, que momentos antes atirara uma ponta de cigarro pela janela da carrinha de caixa aberta que conduzia. Quando a fila avançou novamente, o homem da carrinha de caixa aberta esperou até o BMW se colocar à sua frente — e depois já não avançou, por falta de espaço.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Com frequência, apitava um protesto. Naquela manhã nem o fez. Mas, quando os veículos à frente dele avançaram, começando a descrever a longa curva à direita de acesso à via rápida, o olhar dele pousou na parte lateral esquerda do BMW – a única que conseguia ver. Pensou como seria agradável arrastar o condutor para fora do carro, atirá-lo ao asfalto, pontapeá-lo um par de vezes. Fixou os olhos no pneu traseiro direito do BMW e, de dentes cerrados, apertando o volante, pensou como seria adequado que ele explodisse naquele preciso instante, forçando o filho da puta a parar, sair do carro, molhar-se, perder a vez na fila, sujar as mãos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Lembrar-se-ia de um estrondo surpreendentemente abafado — distorção da memória ou talvez efeito da chuva. Porém, encontrando-se a olhar para o pneu, teria dispensado o som. A traseira do BMW estremeceu e depois decaiu um pouco, como se alguém tivesse baixado um macaco pneumático. A parte inferior do pneu, dobrada e presa sob a jante, parecia ter sofrido um processo de fusão. Mas até mesmo a zona que não estava em contacto com o asfalto suscitava estranheza: a flacidez, o ligeiro afastamento entre o rebordo e a jante realçavam a incongruência decorrente da perda súbita de função (um objecto artificial que perde a função perde o sentido) e faziam do pneu rebentado não tanto um objecto real e prosaico mas algo mais imaterial – um conceito, uma experiência, um &lt;em&gt;castigo&lt;/em&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Primeiro sentiu surpresa e choque, depois satisfação. Era perfeito. Exactamente o que desejara. Tão exactamente o que desejara, de facto, tão no preciso instante em que o desejara, que classificar o acontecimento como coincidência parecia forçado. Mas ele tivera fantasias similares antes e nada acontecera. &lt;em&gt;Era&lt;/em&gt; uma coincidência. Uma fantástica e &lt;em&gt;justa&lt;/em&gt; coincidência.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Quando passou pelo BMW, a visão do homem a olhar para os restos do pneu fê-lo sorrir e respirar fundo. Foi invadido por uma sensação de calma. Era uma sensação que não experimentava com frequência durante aquelas manhãs. Era uma sensação que — estava certo disso — se dissiparia rapidamente. Mas era uma excelente sensação.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: right;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;&lt;em&gt;(Continua amanhã...)&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/sobrepressao-15-15239</comments>
  <lj:replycount>0</lj:replycount>
  <category>sobrepressão</category>
  <category>contos demasiado longos para um blogue</category>
</item>
<item>
  <guid isPermaLink='true'>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/barba-e-cabelo-boletim-de-voto-14673</guid>
  <pubDate>Sat, 23 Jan 2016 16:46:00 GMT</pubDate>
  <title>Barba e cabelo: boletim de voto</title>
  <author>José António Abreu</author>
  <link>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/barba-e-cabelo-boletim-de-voto-14673</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Certa vez um cliente chamou-lhe «salão» e tanto Mário como Octávio pararam de cortar e olharam um para o outro com ar aparvalhado. «Isto é uma barbearia», resmungou Mário enquanto recomeçava a dar aos dedos. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Trata-se de um espaço rectangular com cerca de cinco metros de comprimento por menos de três de largura. Quem entra pela porta dupla de metal e vidro, colocada numa das paredes mais curtas, depara-se com duas cadeiras de barbeiro voltadas para a esquerda, na direcção de um espelho que ocupa quase toda a área de parede acima de aproximadamente meio metro de altura. Ao lado da porta existe um bengaleiro e, ao lado deste, uma mesinha onde um rádio portátil sintonizado para a estação local debita canções pedidas por ouvintes que as dedicam a familiares e amigos. O espaço por trás das cadeiras de barbeiro é limitado, pelo que, das seis cadeiras de metal com assento e encosto forrados a napa verde-azeitona que aí se encontram, apenas as duas das pontas podem ser usadas sem que as pernas dos ocupantes compliquem a vida a Mário ou Octávio nas suas deambulações em torno dos clientes. Ao fundo, junto à porta de acesso a uma área reservada (onde presumo existir uma casa de banho), há um lavatório no qual é lavada a cabeça dos raros clientes que o desejam.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Mário é baixo, magro e usa bigode à treinador de futebol dos anos 70. Octávio é alto, tem cabelo branco em ondas que flutuam em torno da sua cabeça e uma dezena de quilos a mais. Mário é o patrão e essa circunstância está sempre implícita. Fala mais e de forma mais categórica. Octávio é o filósofo, embora um filósofo de tiradas curtas e frequentemente irónicas. Eu prefiro que seja ele a cortar-me o cabelo e ambos o sabem. Se é Mário que está disponível quando chega a minha vez, ele resmunga para o cliente seguinte: «Pode vir», o que deixa o homem indeciso, olhando dele para mim, tentando perceber se sou eu que não quero ser atendido por Mário, se é este que recusa atender-me. E, em qualquer dos casos, porquê. Contudo, apanhados de surpresa, ninguém tem coragem para expressar a dúvida em voz alta.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Apesar de lá cortar o cabelo há mais de trinta anos, sempre de dois em dois meses, sempre ao sábado de manhã, e de nunca ter mudado o estilo de corte, Octávio faz questão de perguntar: «Então como vai ser hoje?» Às vezes brinco com a ideia de lhe dizer para estar à vontade e cortar como lhe apetecer mas refreio-mo: por um lado, sou conservador, pelo menos no que respeita ao meu aspecto; por outro, julgo que os únicos estilos alternativos que Octávio e Mário conhecem são os permitidos pelos pentes das máquinas de corte.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;A barbearia fica no largo municipal, vendo-se o edifício da Câmara quase em frente. No passeio estão sempre a passar pessoas. Quando no interior falta assunto de conversa, Mário (nunca Octávio) usa-as para evitar silêncios demasiado prolongados, de acordo com critérios que nunca percebi mas presumo estarem ligados ao seu estado de espírito (por vezes suporta longos períodos sem necessidade de falar, de outras parece incapaz de estar calado mais do que alguns segundos).&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Hoje Mário apara os poucos cabelos existentes na cabeça de um idoso cujas feições me recordam alguém – seria funcionário na escola secundária nos tempos em que a frequentei? – enquanto Octávio me faz o corte do costume. À espera, encontra-se apenas mais um cliente, um homem franzino, com barba que parece não ser cortada há uma semana e cabelo que parece não ser lavado há três. Mário esteve a protestar contra o dinheiro injectado nos bancos, «que ainda por cima cobram cada vez mais comissões». Mas o filão esgotou-se e nos últimos trinta segundos só se ouviu Tony Carreira e o som das tesouras.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;«O Antunes passa mais tempo na rua do que talho», diz Mário.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;«Deve ir aos correios», diz Octávio. «Agora que deixou de receber cartas em casa.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Octávio está entre mim e a porta e, de qualquer modo, está a dar os últimos retoques no corte do meu cabelo, pelo que não posso rodar a cabeça para ver quem passa na rua.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;«O Magalhães continua a lá ir.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;«Acho que não foi, durante uns tempos.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;«Foi. Às escondidas, noutro horário.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;«Ah. Ele vai estar nas mesas de voto, desta vez?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;«Não sei. Deve estar.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;«E se acontece outra vez?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;«Pois, só a hipótese devia fazê-lo ficar em casa. Mas deve estar. Olha quem.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Octávio pergunta-me se já chega. Digo-lhe que sim. Ele desaperta o pano branco que evita que o cabelo cortado entre para dentro da minha roupa (desconfio que os fazem a partir de lençóis velhos). Saio da cadeira.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;«O que aconteceu?, pergunto.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;«Não sabe?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Digo-lhe que não faço ideia enquanto retiro uma nota de dez euros da carteira.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Naquele espaço é Mário quem conta as histórias mas, não gostando particularmente de mim, hesita. Depois decide-se.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;«Toda a gente de cá conhece a história», resmunga. «Não se falou de outra coisa.» Ignoro o remoque. Ele mordisca o bigode e continua: «O Antunes está sempre numa mesa de voto. Nas últimas eleições estavam a contar os votos, tudo a correr como de costume, quando apareceu um em que alguém tinha escrito em letras grandes: &apos;A mulher do Antunes do talho anda metida com o carteiro&apos;.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Fica à espera da minha reacção. Rio-me. Por causa da história e da formulação da mensagem anónima: só numa terra destas alguém escreveria “anda metida”. Mantenha-se a decência, mesmo quando o tema são indecências.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;O cliente seguinte intervém subitamente, enquanto se levanta da cadeira: «Ele chegou a ir a casa do Magalhães pedir satisfações mas não o encontrou e ainda foi insultado pela mulher. Pela mulher do Magalhães.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;«Isso é só gente a falar», diz Octávio. Estende-me quatro euros de troco, na mão aberta.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;«Não», garante o homem. «A minha cunhada assistiu.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Deixo dois euros na palma da mão de Octávio. Pergunto: «E era verdade, o que o escreveram no boletim?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Mário funga. «Se fosse só com o carteiro…»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;«Se calhar até foi ciúme», diz Octávio.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;«Ele não reconheceu a letra?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;«Estava em maiúsculas», responde Mário.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;«E ainda bem que não conheceu», diz Octávio. «O voto é secreto.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Claramente, o tema já originou muitas piadas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Mário sorri, demonstrando alegria genuína pela primeira vez. «A denúncia quase nem foi o pior. O Antunes é do PS. Sofre mais pelo PS do que pelo Benfica. E, como o boletim tinha a cruz no PS, queria que fosse válido.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Octávio abana a cabeça, em sinal de respeito. «Pôr lá a cruz foi de mestre. Quem fez a coisa dava-se a requintes de malvadez.» Indica ao cliente seguinte que suba para a cadeira.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: 10pt;&quot;&gt;Despeço-me e saio. O céu está carregado mas não chove. Vou caminhando pelo passeio, em direcção a um dos cantos da praça. Ao passar junto ao talho, espreito lá para dentro. Não vejo o tal Antunes. Apenas uma mulher baixa e gorducha, com mais de cinquenta anos. Deve ser uma funcionária.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/barba-e-cabelo-boletim-de-voto-14673</comments>
  <lj:replycount>0</lj:replycount>
  <category>contos do tamanho certo</category>
  <category>barba e cabelo</category>
</item>
<item>
  <guid isPermaLink='true'>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/ano-novo-14591</guid>
  <pubDate>Thu, 31 Dec 2015 16:47:00 GMT</pubDate>
  <title>Ano Novo</title>
  <author>José António Abreu</author>
  <link>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/ano-novo-14591</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;As dores começaram a sério na manhã do dia 31 de Dezembro. Para Susana, não constituíram uma surpresa. Há meses que as esperava a qualquer instante. Sentira-as até muitas vezes, em parte reais, em parte por antecipação. Fez uma tentativa débil para se convencer de que ainda não seria agora, de que não passava de um falso alarme, mas desistiu de imediato. Para quê fingir optimismo nesta fase?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;Vítor estava a trabalhar. Pensou telefonar-lhe mas desistiu também dessa ideia. Fá-lo-ia mais tarde. Ou não. Os esforços que ele fazia para lidar com a situação deviam agradar-lhe (sabia-o perfeitamente) mas, em vez disso, irritavam-na.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;Deitou-se no sofá da sala e recordou os dias do diagnóstico. A preocupação do médico, cuja confiança profissional se esvaiu ao perceber o grau do pessimismo dela. «Precisa de ânimo. Uma visão positiva é essencial.» As garantias de Vítor de que tudo correria bem: «Não há verdadeiras razões para ficares assim. As taxas de sobrevivência são altíssimas, hoje em dia.» (Evitava sempre dizer «taxas de mortalidade», em mais uma demonstração de tacto que a irritava profundamente.)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;Ela sabia que era verdade. Mas também conhecia os factores de risco, que, honra lhe fosse feita, o médico nunca suavizara. E, acima de tudo, conhecia a história da sua família. Pesquisara. Por entre um mar de imprecisões e contradições, os familiares mais idosos recordavam pelo menos cinco mortes, todas pelo mesmo motivo. A penúltima, claro, fora a da mãe dela. A última, a de uma tia, irmã da mãe. Era a única de que Susana se lembrava, embora vagamente. Tinha seis anos. Haviam-na poupado ao funeral mas recordava a viagem até à Guarda, onde a tia residia com o marido. No final da década de 1970, as viagens ainda eram difíceis e, talvez por isso, memoráveis.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;As dores não desapareceram. Pelo contrário, foram aumentando ao longo da manhã, como ela sabia que aconteceria. Almoçou uma maçã, voltou para o sofá. Perto do final da tarde, desistiu. Ligou para o telemóvel de Vítor. O som de chamada prolongou-se tanto que ela desligou num espasmo. Deu um par de minutos e ligou o número do médico. Dia 31 de Dezembro à tarde. Seria possível apanhá-lo? Foi. Atendeu, disse-lhe que seguiria de imediato para o hospital, profissional até na forma como escondeu a mais do que natural desilusão pela noite de passagem de ano estragada. Perguntou-lhe se tinha quem a levasse. Susana hesitou e depois respondeu que sim. «OK, encontramo-nos lá. Anime-se. Vai correr tudo bem.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;Ela sabia que as pessoas estranhavam. Que, no íntimo, a consideravam egoísta. Não era suposto reagir daquele modo. Tornava tudo mais difícil para toda a gente. Devia facilitar-lhes a vida, aceitando o desafio com estoicismo; não, com mais do que isso (estoicismo tinha ela) : com ânimo, talvez mesmo entusiasmo. Era incapaz de o fazer. Percebia a inutilidade do seu comportamento, a injustiça que cometia e pela qual, se tudo acabasse mesmo por correr bem, teria de se penitenciar, mas as coisas eram como eram.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;À segunda tentativa, Vítor atendeu. O tom de pânico na voz dele devia tê-la enternecido. Não o fez. Ele prometeu estar em casa em menos de um quarto de hora. Susana disse-lhe para não exagerar no trânsito. Só faltava ter um acidente. Depois de desligar, lembrou-se do comportamento dele nos primeiros tempos. De como parecia sentir mais medo do medo dela do que do risco que ela corria. Susana acabara por lhe garantir: «Sossega. Não vou fazer nada de irreflectido. Não condiz comigo.» Mas nem por isso ele ficou mais tranquilo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;Sabia que correra riscos. Perguntou-se várias vezes porquê. Um desafio à sorte? Mas então por que não conseguira assumi-lo até ao fim? Porquê o negativismo, a sensação de que o trajecto era inexorável e ela (como na viagem para a Guarda, há cerca de trinta e cinco anos) uma simples passageira?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;As dores regressaram, tão fortes que a atiraram ao chão. Ao longo dos últimos meses, a sogra, especialista numa mistura de encorajamento e crítica, dissera-lhe várias vezes para rezar. Susana nem sequer sabia uma oração.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;A filha tinha testa ampla como o pai mas os olhos eram os dela. E o nariz. Susana perguntou-se que efeitos negativos teria programado o seu pessimismo naquele corpo minúsculo. Desconhecia se, há quarenta e um anos, a mãe a chegara a ver e não conseguia decidir qual a melhor hipótese: morrer depois de verificar a sobrevivência de uma filha ou antes de confirmar a existência de um ente que se abandona no mundo. Mas Susana sobreviveria. Pelo menos isso.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;O médico entrou no quarto. Já vestia roupa normal, tinha um ar cansado.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;«Deu luta, hã? Mas está de parabéns. Tem uma bela rapariga. E sortuda, ainda por cima. Vai começar já a ter presentes. Foi o primeiro parto do ano aqui no hospital e provavelmente em todo o país.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;Mas logo a seguir explicou-lhe que, agora, talvez fosse mesmo preferível evitar nova gravidez. «Não estou a dizer taxativamente que não possa. Digamos que é algo a avaliar com cuidado, dependendo da evolução da situação, OK?» Tocou-lhe no braço, desejou-lhe um bom ano e saiu.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;Vítor começou a falar. Dizia o que devia dizer (tudo correria bem; era cedo para ter certezas; mesmo que não pudessem ter outros filhos, isso não constituiria uma tragédia) mas ela não sentia vontade de o ouvir. Olhou para a filha, que ainda nem tinha nome. Alegria e renovação do medo, pensou. Talvez a única forma adequada de entrar num ano novo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/ano-novo-14591</comments>
  <lj:replycount>1</lj:replycount>
  <category>contos do tamanho certo</category>
</item>
<item>
  <guid isPermaLink='true'>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/tia-14306</guid>
  <pubDate>Sat, 04 Jul 2015 13:52:00 GMT</pubDate>
  <title>Tia</title>
  <author>José António Abreu</author>
  <link>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/tia-14306</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;«Só tu é que me vens visitar.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;Há seis camas na enfermaria. Desde a primeira visita de Jorge, há cerca de dois meses, o número das ocupadas variou. Hoje são quatro. A tia encontra-se na primeira à esquerda da porta de entrada. Ao lado tem uma senhora com mais de setenta anos, rodeada pela filha e por duas netas. A terceira cama encontra-se vazia. Na outra fila de três, a vazia é a do meio. Já lá teve uma rapariga, vinte e cinco anos, talvez nem tanto. Morreu há uma semana. Nas outras encontram-se duas senhoras de idade. Apenas uma tem companhia – do marido, pelo aspecto.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;Jorge tem dificuldade em perceber as palavras da tia. A voz dela é fraca e arquejante. Não admira. Basta ver como está magra e fraca. De tal forma que lhe custa a acreditar que se trata mesmo da sua tia Helena, irmã mais nova da mãe dele. O elemento da família que, em criança, ele preferia. Simpática e sempre disponível mas cuidadosa para não o sufocar com beijos e abraços, como faziam outras mulheres da família. Uma vez (lembra-se sempre daquilo, quando pensa nela), estando Jorge doente (já não recorda qual a doença), passou horas na cama ao lado dele, jogando às cartas e às damas (a cama é um péssimo sítio para jogar damas: a maioria das partidas terminara com peças deslizando pelo tabuleiro e perdendo-se nos lençóis, por entre risos e acusações de batota). A tia era muito mais nova, então (teria pouco mais de vinte anos) e bastante mais atraente. Ainda se pode detectar parte dessa beleza na cara dela, hoje emagrecida pela doença. Desapareceu, contudo, toda a vivacidade que possuía, bem como toda a inconsequência que advém da juventude, de raramente se sentir dor física, do conceito de morte ser tão estranho e distante como a composição da atmosfera de outro planeta (em miúdo, os planetas e as estrelas eram um dos temas favoritos de Jorge). Hoje, a expressão da tia mostra não apenas desespero – expectável – mas um grau de surpresa que deixa Jorge perturbado e lhe torna difícil encará-la.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;Sabe que ela fala verdade e que só ele a visita regularmente. Isso sucede porque outros elementos da família já morreram (a mãe dele, por exemplo), porque alguns emigraram (o enteado que ela criou desde muito novo), porque, encontrando-se no país, estão suficientemente longe para que a distância possa servir como desculpa (o ex-marido, o irmão, vários sobrinhos).&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;«Não precisas de vir tantas vezes. Tens a tua vida.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;«Não me custa nada. Faço-o com prazer.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;Prazer? Jorge fica envergonhado assim que a palavra lhe sai dos lábios.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;Como sempre, tem dificuldade em manter a conversa. Esgotadas as frases ocas e, em alguns casos, falsas («Como se sente hoje?»; «Está com melhor aspecto.»; «Não tarda nada sai daqui.»), é-lhe complicado pensar em temas sobre os quais possam conversar. O passado, evidentemente, constitui a excepção. A tia parece apreciar relembrá-lo (até mesmo aquelas épocas nas quais Jorge mal a via e que – pensa ele – não devem ter sido particularmente felizes) mas ele fica desconfortável. Parece-lhe uma solução fácil, cobarde, que implica o reconhecimento de que ela morrerá em breve.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;Mas morrerá. É uma questão de semanas, dois meses no máximo. Até já resistiu mais tempo do que os médicos previam no início.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;«Cada vez tenho menos razões para permanecer viva.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;Não é a primeira vez que ela diz aquilo. A frase perturba-o. Coloca-lhe sobre os ombros uma responsabilidade à altura da qual teme não se encontrar. Já em várias ocasiões pensou em não vir com tanta frequência. As visitas deixam-no esgotado e, para mais, reside a uma centena de quilómetros, o combustível e as portagens não ficam baratos. Mas como pode fazê-lo? Sabe constituir uma dessas poucas razões – à medida que se torna evidente o desinteresse de outros membros da família, talvez a única. Se estivesse outra pessoa naquela cama, se não soubesse que, de facto, quase mais ninguém a visita, a frase poderia irritá-lo. Fazê-lo sentir-se chantageado. Mas aquela é a tia Lena. A sua tia preferida. Que sempre esteve disponível para ele. Que talvez apenas se mantenha viva para ele. (Valerá a pena? Deverá sentir-se mal por isso?)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;Fica com ela até ao fim do horário para visitas. Faz-lhe perguntas sobre as companheiras de enfermaria mas descrever as doenças das outras mulheres e como várias já morreram também é deprimente. Torna claro que daquelas camas apenas se sai para o cemitério. Procura outros assuntos. Inevitavelmente, regressa ao passado.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;No final, diz-lhe: «Volto em breve.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;A tia responde que não é preciso mas Jorge sabe que mente. Quando lho disse, perpassou-lhe pelos olhos um indício da antiga vitalidade. Um sinal de prazer.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;«Faço-o porque quero.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;Inclina-se e beija-a. As faces encovadas perturbam-no. Difusamente, pensa que já devia estar habituado.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;Olha para trás à saída e diz-lhe adeus. Segue pelos corredores e desce as escadas tentando não olhar para os outros visitantes. Não se quer rever neles. Na rua, inspira fundo. Mas o ar está quente e cheira a asfalto e gases de escape.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;Estacionara o carro fora do perímetro do hospital. O horário das visitas terminou mas os passeios ainda estão atravancados com veículos. Passa entre uma carrinha branca e um furgão e começa a atravessar a rua. Apercebe-se de uma comoção difícil de definir, depois ouve um ruído de travagem e logo a seguir o automóvel atinge-o do lado esquerdo. Voa meia dúzia de metros. Ao cair, bate com a cabeça no asfalto. Sente o sabor do sangue. Antes da escuridão o envolver, pensa que a tia acabou de morrer.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/tia-14306</comments>
  <lj:replycount>0</lj:replycount>
  <category>contos do tamanho certo</category>
</item>
<item>
  <guid isPermaLink='true'>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/teologia-da-distancia-13930</guid>
  <pubDate>Wed, 13 May 2015 16:07:00 GMT</pubDate>
  <title>Teologia da distância</title>
  <author>José António Abreu</author>
  <link>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/teologia-da-distancia-13930</link>
  <description>&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p class=&quot;western&quot; style=&quot;margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;Há um tema proibido em qualquer reunião da minha família: as peregrinações a Fátima. Inevitavelmente, com a insídia que caracteriza a maioria dos seus membros – provavelmente similar à que caracteriza a maioria dos membros da maioria das famílias – alguém acaba sempre por aproveitar um instante mais calmo nas conversas cruzadas para o abordar, desde que a tia Amélia e a tia Natalina estejam na sala. A discussão teológica que se segue tem tanto de novo como as cenas mais conhecidas dos velhos filmes portugueses &lt;span style=&quot;font-style: normal;&quot;&gt;mas, como elas, permite o conforto de verificar a constância de certos comportamentos e, ocasionalmente, que se atinjam momentos de surpreendente profundeza (se alguém parasse um pouco para reflectir sobre eles, o que está longe de ser o caso).&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class=&quot;western&quot; style=&quot;margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;Irmãs do meu pai, a tia Amélia e tia Natalina aproximam-se dos setenta anos de idade. Nasceram ambas na velha casa de Vila Verde, vendida depois da morte dos pais. A tia Amélia é a mais velha. Casou há perto de cinquenta anos com um vendedor de tractores e alfaias agrícolas e mudou-se para Vinhais, distante de sete quilómetros. O meu pai, cinco anos mais novo, acabou por segui-la mas a tia Natalina foi parar mais longe. No casamento de um tio encontrou um rapaz da Marinha Grande e, após muitos lamentos da mãe (o rapaz era simpático e parecia de boas famílias mas a Marinha Grande ficava tão longe), casou-se com ele e mudou-se para lá. Apesar da distância, as duas irmãs mantiveram contacto, nas primeiras décadas através de cartas frequentes e telefonemas raros (as chamadas ficavam caras), ultimamente recorrendo ao telemóvel e ao Facebook, de que são fãs incondicionais.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class=&quot;western&quot; style=&quot;margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;A tia Amélia teve dois filhos, que – refere-o com um sorriso de orgulho, como se nada na vida ficasse a cargo da sorte e, por conseguinte, o mérito fosse todo seu – nunca lhe causaram preocupações. Já a tia Natalina deu à luz três crianças. Até hoje, duas tiveram apenas as doenças normais para qualquer pessoa mas à outra – a minha prima Cristina – foi diagnosticado um cancro há cerca de doze anos. Desesperada, a tia Natalina prometeu ir a Fátima se o tratamento resultasse. Cristina sobreviveu e a mãe cumpriu a promessa logo no mês de Maio seguinte.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class=&quot;western&quot; style=&quot;margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;A polémica começou num dia de Natal em que a tia Natalina descrevia novamente o quão andara preocupada e como, apesar de ter ficado com os músculos doridos e os pés cheios de bolhas, sentira uma paz imensa ao chegar ao santuário. Pouco impressionada, a tia Amélia resmungou: «Até parece que fizeste um grande esforço.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class=&quot;western&quot; style=&quot;margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;Foi o bastante para iniciar uma discussão que se prolongou durante um par de horas, destruindo completamente o espírito natalício, a qual ainda hoje tem sequelas que seguem um guião mais ou menos fixo: a tia Amélia diz que ir da Marinha Grande a Fátima – «São o quê? Quarenta quilómetros?» – não é grande feito; a tia Natalina responde que lá sabe ela, que nunca andou mais de quinhentos metros de cada vez; a tia Amélia diz que andou, sim senhora, e por caminhos bem mais irregulares, além do que pode não ter ido a pé a Fátima mas conhece muita gente que já foi e dali mesmo, de Vinhais, que fica a uns quatrocentos, e que como todos sabem há pessoas que vão de Bragança e do Minho inteiro e certamente também do Algarve, e que essas é que são peregrinações difíceis; a tia Natalina replica que cada um vai de onde mora, que não tem culpa de morar relativamente perto do santuário, que há pessoas que ainda moram mais perto e não merecem ser apoucadas daquela forma, e que, no fundo, o que conta é a intenção; a tia Amélia responde que se contasse apenas a intenção não era preciso fazer a viagem, que também é necessário algum sacrifício concreto para a promessa valer alguma coisa e que, acima de tudo, é um descaramento e um pecado uma pessoa andar depois a gabar-se de ter feito um grande esforço quando na verdade não fez. Esta acusação tira a tia Natalina do sério e, se ninguém as parar (nesta fase é difícil) ficam para ali durante horas a discutir a importância da distância no valor da promessa enquanto os maridos continuam a jogar sueca ou dominó, fingindo não ouvir. Os restantes elementos da família primeiro divertem-se, depois tentam pará-las, por fim desinteressam-se e iniciam conversas paralelas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class=&quot;western&quot; style=&quot;margin-bottom: 0cm; text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;É isto uma e outra vez. Entretanto, a minha prima Cristina confidenciou-me que a mãe, recusando embora admiti-lo para não dar o braço a torcer perante a irmã, já percorreu a pé os trinta e tal quilómetros até Fátima mais duas vezes. Para que a Deus não restem dúvidas acerca do seu empenho. Prometi a Cristina manter o segredo mas, a cada nova reunião de família, pergunto-me se não seria mais caridoso - mais cristão, até - deixar escapar a verdade.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/teologia-da-distancia-13930</comments>
  <lj:replycount>0</lj:replycount>
  <category>contos do tamanho certo</category>
</item>
<item>
  <guid isPermaLink='true'>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/drh-13574</guid>
  <pubDate>Sat, 14 Feb 2015 13:27:00 GMT</pubDate>
  <title>DRH</title>
  <author>José António Abreu</author>
  <link>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/drh-13574</link>
  <description>&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;Bate à porta duas vezes, com pouca força, e depois entreabre-a.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;«Dá licença?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;«Ah, entre, João. Como está?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;«Bem, obrigado.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;Ela não se levanta. A mão que lhe estende é longa e magra e tem um anel com uma pedra azul no dedo médio. João aperta-a com cuidado. O toque é firme e suave, exactamente como esperava que fosse, mas ainda assim deixa-o perturbado. A mão dela está fria. Pensa em retê-la um pouco no interior da sua, para a aquecer, mas ela puxa-a. Ele segue a mancha azul com os olhos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;«Sente-se, João.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;Obedece. A cadeira é dura e baixa. João sabe ser quase dez centímetros mais alto do que ela mas naquele gabinete, sentados ela atrás da secretária e ele à frente, são da mesma altura. Repara no pequeno sinal castanho que ela tem junto ao olho esquerdo – e depois desvia o olhar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;«Anda tudo bem consigo, João?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;O tom de voz é neutro, impessoal, mas ainda assim ele sente um frémito. Hesita. Ela fez a pergunta a olhar para baixo, para os papéis em cima da secretária. Não estará verdadeiramente interessada na resposta, pensa João. Diz: «Dentro do possível.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;«Ainda bem, João.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;«A minha mulher morreu.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;Ela nem sequer ergue os olhos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;«Mas já foi há uns tempos, não foi?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;A reacção dela fá-lo arrepender-se de ter mencionado o assunto. Claro que ela tinha de saber. É directora de pessoal.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;«Há oito meses. Quase nove.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;Ela levanta finalmente a cabeça. João repara que tem outro sinal, mais pequeno, do lado direito da testa, quase na têmpora. Não se vê bem porque às vezes o cabelo tapa-o.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;«Ainda lhe sente a falta?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;Ele não sabe que resposta dar. Não quer mentir mas dizer que quase já não pensa na mulher, ainda por cima depois de ter puxado o assunto, vai parecer mal.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;«Tento não pensar nisso.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;Ela continua a olhá-lo durante mais um instante. Depois diz: «É capaz de ser o melhor» e volta a baixar os olhos para os papéis. João sente desvanecer-se o orgulho de ter conseguido uma resposta inteligente.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;João não apenas pensa pouco na falecida mulher como já nem se lembra bem dela. Houve um par de ocasiões em que tentou recordar-se das suas feições e não conseguiu obter uma imagem precisa. Mas recorda-se de muitas outras coisas. Recorda-se, por exemplo, de quando a directora de pessoal chegou à empresa, três anos antes, tinha ele já vinte e seis de casa. Disse-se que vinha de outra empresa do mesmo sector. Que nessa outra empresa liderara um processo de despedimento colectivo e depois fora também mandada embora. Claro que pode não ter passado de um boato. Uma forma de a diminuir e fragilizar logo à partida. João também trabalhara noutra empresa antes – mas há uma eternidade, entre os quinze e os vinte e um. Depois viera para esta. A constatação de que haviam decorrido vinte e nove anos (quase trinta, na verdade) deixa-o confuso e indisposto. Especialmente por isso o lembrar de que está a chegar aos cinquenta anos de idade. E sente-os. Gostaria de não sentir, por vezes tenta convencer-se de que não sente, mas sente.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;A directora de pessoal deve ter trabalhado em mais empresas, não apenas na anterior e nesta. Ou então passou muitos anos na anterior. No início, quando ela chegara, João tivera dificuldades em determinar-lhe a idade. Magra, elegante, bem vestida, quase sempre de saltos altos, parecia não ter mais de trinta e cinco. Mas depois observava-se-lhe a cara e ficava-se na dúvida se a maquilhagem não servia para disfarçar os efeitos de um número de anos mais elevado. João perguntara a alguns colegas e fora gozado por isso mas acabara por descobrir: quarenta e um. Isto há três anos. Agora andará pelos quarenta e quatro. João pensa que ela não os parece. E depois, como em inúmeras ocasiões nos três anos anteriores, que é apenas seis anos mais nova do que ele.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;Ao chegar à empresa era casada mas entretanto divorciara-se. Tinha um filho, que João vira apenas uma vez, logo no primeiro Natal. Nessa altura a empresa ainda fazia uma festa, com distribuição de presentes às crianças dos trabalhadores. O filho dela andaria agora pelos oito ou nove anos, o que significava que ela o tivera por volta dos trinta e cinco. João sabe que hoje em dia poucas mulheres têm filhos antes dos trinta e cinco. A carreira é mais importante. Ele também tem um filho. E uma filha. Mas ambos já acima dos vinte. Haviam nascido, com menos de dois anos de intervalo, numa época em que tanto João como a mulher andavam pelos vinte e cinco – praticamente a idade que o filho tem agora. Estão fora de casa, ele numa empresa de metalomecânica na Alemanha, ela a acabar o curso de assistente social no Porto. Espera-a o desemprego, é o que todos dizem, mas João tenta não pensar nisso. Desde que ficou sozinho em casa esforça-se por não pensar no futuro. A mulher é que fazia questão de estar sempre antecipar o futuro – constantemente cheio ameaças.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;Ela fala de novo: «João, não sei se desconfia da razão por que quis falar consigo.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;No decurso daqueles três anos João vira-a poucas vezes. Apesar de ser directora de recursos humanos, raramente vai à fábrica. Mas ele lembra-se de que houve uma época em que andava abatida. Foi antes e logo depois do divórcio que – João ouviu-o não sabe a quem – coincidiu com a morte da mãe. Um dia, por volta das três e meia da tarde, João ia a sair, depois de concluir o turno, quando a viu dirigir-se para o carro. Parou. Trabalhando em horários desencontrados, nunca tinha oportunidade de falar com ela. Mas agora ali estava, saindo mais cedo por qualquer razão. Começou a caminhar na direcção do carro dela, tentando lá chegar ao mesmo tempo que ela. Estavam ambos a cerca de dez metros quando ela o viu. João notou as olheiras e o ar cansado e ficou sem coragem para meter conversa. Disse «Boa tarde» ao passar por ela e continuou a caminhar. Que se lembre, ela não falou. João só olhou para trás quando ouviu o carro arrancar. Depois foi para casa.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;Apercebe-se de que ela disse qualquer coisa que lhe escapou.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;«Desculpe, o quê?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;Ela olha-o rapidamente e depois desvia os olhos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;«A empresa não faz isto com agrado, João, mas os tempos estão complicados e é necessário reduzir os custos.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;«Vou ser despedido?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;«Não tome isto como uma questão pessoal, João. A empresa precisa de reduzir o pessoal. Vai ser cortado um turno e vão ser dispensados alguns elementos da área administrativa.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;João consegue agora perceber que o sinal mais pequeno não é bem preto. É escuro mas ligeiramente rosado. Ou talvez fique assim quando ela está nervosa.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;«Evidentemente, serão pagas todas as indemnizações devidas. Tenho aqui o valor da sua.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;Mas é difícil ter certeza de que está nervosa. Parece mais cansada do que nervosa. E aborrecida - ou talvez farta. João pensa que não deve ser fácil ter de dar aquelas notícias. Pega no papel que ela lhe estende.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;«Porquê eu?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;«Você está no sector onde temos mais excesso de capacidade. E depois não tem família a seu cargo.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;«A minha filha ainda está a estudar. Sou eu que lhe pago os estudos.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;Ela olha para os papéis.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;«Deve estar a acabar o curso, não deve? E você vai ter subsídio de desemprego. De qualquer forma, a maioria dos seus colegas tem filhos mais novos.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;É verdade. Não obstante a empresa ter muitos trabalhadores com idade parecida com a dele, raros foram pais antes dos trinta ou trinta e cinco anos. Toda a gente tem filhos mais tarde, hoje em dia.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;João não tem vontade de discutir a situação. Olha para o papel. Ela diz: «Não é um valor baixo. Você já cá trabalha há muitos anos.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;Ele não sabe o que dizer. Não lhe apetece discutir. Não com ela, pelo menos. Ficam assim, em silêncio, durante vários segundos que parecem acabar por ser mais desconfortáveis para ela.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;«Quer fazer alguma pergunta, João, ou dizer alguma coisa?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;Está a olhar para ele, agora. Mas neste momento é a João que apetece desviar os olhos. Perpassa-lhe pela mente a ideia de que a comunicação dela e o papel que tem na mão são provas do seu falhanço. Em vinte e nove anos de serviço (falhará os trinta por dois meses) não conseguira tornar-se importante para a empresa. Pelo contrário: é dos menos importantes. E é ela quem lhe comunica o facto.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;«Não.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;«Não leve isto pessoalmente. Não deixe que o afecte. E, se precisar de falar comigo outra vez, esteja à vontade.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;Estende-lhe a mão. João levanta-se da cadeira e aperta-a. Continua fria.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;«Boa sorte, João», diz ela.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;«Obrigado.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;João roda e dirige-se para a porta. Pára junto dela e roda outra vez.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;«Talvez volte. Vou pensar no assunto e depois talvez volte.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;«Claro, João. Mas marque primeiro, está bem? Se aparecer sem avisar pode estar cá alguém e eu não o poder atender.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;João faz que sim com a cabeça. Abre a porta e sai. Enquanto a fecha, aproveita para a olhar uma última vez. Está de novo a prestar atenção aos papéis.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/drh-13574</comments>
  <lj:replycount>0</lj:replycount>
  <category>contos do tamanho certo</category>
</item>
<item>
  <guid isPermaLink='true'>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/o-racista-cego-11729</guid>
  <pubDate>Sat, 15 Nov 2014 10:44:00 GMT</pubDate>
  <title>O racista cego</title>
  <author>José António Abreu</author>
  <link>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/o-racista-cego-11729</link>
  <description>&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;Era racista mas uma doença deixara-o cego. Depois disso tinha imensos problemas em manifestar o racismo às pessoas certas. Fazia-o por ouvido. Quando alguém lhe soava a negro – ou amarelo, pois era um racista abrangente – fazia comentários depreciativos, trejeitos de desagrado ou, nos dias de maior comedimento, afastava-se. Normalmente os alvos suportavam a atitude com estoicismo. De resto, que poderiam fazer? Esmurrar um cego?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;Enganava-se imensas vezes – não apenas porque os círculos em que se movimentava eram quase exclusivamente caucasianos mas também porque as pessoas o evitavam ou então se divertiam às suas custas, imitando sotaques africanos ou orientais. Chegaram a trocar-lhe a bengala branca por uma pintada de preto. Andou com ela vários dias, gerando hilaredade nos que o conheciam mas correndo riscos sérios de ser derrubado num passeio ou atropelado ao atravessar a rua, uma vez que muitos transeuntes e automobilistas  não se apercebiam da sua condição de cego.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: 10pt;&quot;&gt;Como seria de esperar, a dada altura ele começou a aperceber-se das partidas. Isso não o tornou mais prudente. Pelo contrário: aumentou-lhe a paranóia. Recusou um cão-guia com medo que lhe arranjassem um com pêlo preto ou de raça estranha (ninguém chegou a perceber que raças eram aceitáveis mas ficou evidente que abominaria ser guiado por um cão de água). Justificando-se com a premissa de que «quem apoia a perda da identidade branca não merece respeito» insultava toda a gente. Como nem sequer conhecia outros racistas assumidos, não abria excepções. Alguém afirmou um dia: «É uma besta mas, desde que perdeu a visão, bastante igualitária.» Vai-se a ver e descobre-se aqui uma lição de moral.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/o-racista-cego-11729</comments>
  <lj:replycount>0</lj:replycount>
  <category>contos curtos</category>
</item>
<item>
  <guid isPermaLink='true'>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/11315.html</guid>
  <pubDate>Tue, 01 Jan 2013 15:44:18 GMT</pubDate>
  <title>Não é direita, sim é verdade, vermelho é esquerda</title>
  <author>José António Abreu</author>
  <link>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/11315.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;Imaginem um robot. Um robot qualquer, com a aparência que mais vos agradar. Humanóide como o C3PO, apenas um braço articulado como os das linhas de montagem de automóveis, até mesmo com o formato de um daqueles aspiradores que se movem sozinhos pela sala. Qualquer um serve, embora humanóide talvez torne as coisas mais fáceis. O robot que imaginaram, como qualquer robot, funciona de acordo com um conjunto de algoritmos: faz B se acontecer A, opta por D se ocorrer C. Tem uma lógica, segue um conjunto de regras definidas e compreensíveis. Pode, em alguns casos, aprender novas regras mas parte sempre das existentes. Agora imaginem que, em resultado de uma sobrecarga eléctrica, de um vírus informático ou de outro motivo qualquer, se dá uma reprogramação aleatória. O robot deixa de fazer B quando acontece A e passa a fazer D. Ou X. Ou F seguido de R. Para um observador, o robot enlouqueceu. Mas ele continua a fazer o que sempre fez: seguir a programação. Não tem forma de saber que um acontecimento inesperado, e talvez até desconhecido para as pessoas que o rodeiam, lhe alterou os algoritmos. Para ele, tudo está normal – ainda que, em vez de trazer uma bebida ao dono, o tente matar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;A loucura dela era assim. Julgo que a loucura das outras pessoas, a loucura &apos;normal&apos;, tende a ser diferente, mais desordenada e imprevisível, mais parecida com o comportamento que se obteria se os circuitos do robot ficassem parcialmente queimados. Mas a dela era assim. Uma loucura constante, digamos. De confiança, até. Uma loucura que se manifestava nos actos (depois de usar um copo rodava-o entre as palmas das mãos cinco vezes para cada lado; antes de vestir as cuecas alisava-as primeiro sobre a cama; depois de se espreguiçar dava sempre três pulinhos, pondo-se em pé se antes estivesse sentada) e especialmente nas palavras: quando alguém na televisão dizia «Boa noite» (no início dos noticiários, por exemplo) levantava-se de um salto e, com um sorriso, gritava: «Filho da puta!», após o que se sentava com a perna direita dobrada sob o corpo. Está bem de ver que  nem «boa noite» nem «filho da puta» tinham para ela o mesmo significado que têm para a maioria de nós. «Filho da puta» era a forma de ela retribuir o que entendia como um piropo. Se quando estávamos sozinhos em casa este comportamento não gerava quaisquer problemas (eu estava habituado, o José Rodrigues dos Santos não a ouvia), quando estávamos na rua ou num restaurante a situação era mais delicada. Bastava-lhe ouvir «boa noite» para responder de imediato. Apesar do sorriso que ela mantinha na face, nem toda a gente reagia bem.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;Para mim, o mais difícil foi perceber que não havia uma relação lógica entre os termos normais e os termos que ela utilizava. Por exemplo: se a «boa noite» correspondia «és lindo» (ou «és linda»), a «bom dia» correspondia «fazes sombra». «Não» era «direita», «sim» era «verdade», «vermelho» era «esquerda». E, já agora,  a «filho da puta» correspondia, acreditem ou não, «maçaroca de milho». Ela tanto usava substitutos para expressões como para palavras individuais, o que tornava ainda mais difícil decorar-lhe o léxico. Se, em «maçaroca de milho», «maçaroca» significava «filho» (ou «filha»), usada só por si queria dizer «marmelada». Ouvi-a centenas de vezes pedir, durante os pequenos-almoços («barcos à vela») que tomávamos na nossa pequena («três») cozinha («camisa») empoleirados («regatear») em bancos («camiões») estreitos e altos («sorvetes»), parecidos com os que se podem encontrar junto aos balcões («agrafadores») de alguns bares («espirros»): «festinhas maçaroca» («passa-me a marmelada») e «roçar maçaroca na trave» («põe-me marmelada no pão»).&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;O mais extraordinário é que, embora com significados diferentes, ela usava as mesmas palavras das outras pessoas. Apenas em meia dúzia de casos, vá-se lá saber porquê, inventara termos: «crotético», por exemplo, significava «amarelo»; e «bruntanetilíaco», «talvez».&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;E, como o robot, nunca variava. O dicionário no interior da cabeça dela podia ser diferente do das outras pessoas mas era constante. Talvez com duas ligeiras excepções: o uso dos artigos e os tempos verbais. Nestes campos, as regras não pareciam cem por cento fixas. Em «festinhas maçaroca», por exemplo (relembre-se: «passa-me a marmelada»), dispensava o artigo definido; mas em «maçaroca na trave» («marmelada no pão») o artigo encontrava-se lá, embora tivesse mudado de género. E, se em alguns casos trocara verbos por outros verbos e mantinha os tempos verbais, noutros trocara-os por substantivos, adjectivos ou advérbios e usava uma única expressão para todos os tempos verbais: «festinhas» significava «passa-me» mas também «passar», «passou», «passarei», etc. Quaisquer associações lógicas funcionavam apenas no cérebro dela.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;Já era assim quando a conheci. Eu tinha trinta e quatro anos e ela vinte e cinco. Encontrámo-nos pela primeira vez na casa de uma das minhas tias, que estava ligada a uma associação qualquer de solidariedade social. Já não me lembro por que a fui visitar mas lembro-me – oh, quão me lembro – de ter sido uma rapariga minha desconhecida a abrir-me a porta. Tinha cabelo castanho liso que lhe chegava pouco abaixo dos ombros, olhos verdes, nariz pequeno e lábios um tudo-nada finos. Após um instante de surpresa, eu disse: «Olá.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;A expressão dela fechou-se. Perguntei-me se estaria à espera de outra pessoa e ficara desiludida ao ver-me. «Posso entrar? Sou o sobrinho da D. Amélia». Pareceu vacilar um instante e depois perguntou: «Boa trotinete?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;Hesitei, olhei para trás. Não vi qualquer trotinete. Voltei a encará-la.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;«Er... não. Vim a pé.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;Pareceu confusa, algo que acontecia frequentemente: de facto, se, para as outras pessoas, o que ela dizia não fazia sentido, ela tinha o mesmo problema com as frases alheias. Ficámos em silêncio durante vários segundos. Tentei sorrir. Disse: «Posso entrar?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;Ela animou-se. Respondeu: «Balão.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;Continuava na minha frente, a impedir-me a passagem. Tentava decidir o que fazer quando a cabeça da minha tia surgiu por cima do ombro esquerdo dela. Sem falar, puxou a rapariga pelo braço e, sem dificuldade, fê-la recuar. Depois soltou-lhe o braço, agarrou o meu e arrastou-me até à cozinha. Disse: «Não quis ir para a sala porque está lá gente e era mais difícil explicar. Em especial porque ela se vai intrometendo e é uma confusão.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;«O que é que ela tem?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;Abanou a cabeça com ar pesaroso. «Ela não é normal.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;«Não é normal em que sentido?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;«Chama-se Cristina e é adorável. Mas o cérebro dela não funciona bem. Não diz coisa com coisa.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;«Como a maior parte das pessoas que conheço. Incluindo eu – e, às vezes, a tia.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;Ignorou-me. «Tem uma linguagem própria. Para ela, as palavras significam outra coisa.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;Se alguém me perguntasse, eu diria que a minha expressão devia ser aparvalhada mas, considerando a inquietação da minha tia, se calhar já revelava essencialmente fascínio.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;«Deixa a rapariga em paz», pediu. «Não te metas em problemas.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;Mas a minha curiosidade havia sido despertada. Só larguei a rapariga quando as duas mulheres com quem ela estava, ambas amigas da minha tia, uma delas tia de Cristina (a mãe, soube-o mais tarde, falecera há meia dúzia de anos e o pai desaparecera pouco depois de ela nascer), saíram, levando-a com elas. Tendo percebido o meu interesse, a minha tia passou dez minutos a avisar-me para não me meter com «a rapariga». Não resultou, claro. Fui visitá-la no dia seguinte e quase todos os dias que se seguiram a esse. Para além da beleza dela, fascinava-me aquele mundo próprio, aquela lógica intransigente, aquela capacidade de criar uma linguagem que mais ninguém entendia. As nossas conversas – durante muito tempo, vigiadas pela tia desconfiada – pareciam jogos de palavras aleatórias, em que ela entrava com um prazer infantil e eu hesitava, erguia as mãos e mordia os lábios, tentando, mais intensamente do que em qualquer outra ocasião no passado, compreender o que me diziam. Cristina ensinou-me a ouvir; a, pela primeira vez na vida, escutar verdadeiramente o que alguém me dizia e a aplicar todas as minhas capacidades na descodificação do que me era dito. Nenhuma conversa com ela permitia distracções ou desinteresse.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;Evidentemente, não foi fácil. Foi muito mais difícil do que aprender uma língua estrangeira porque não havia associações possíveis nem qualquer lógica subjacente. Eu limitava-me a anotar todos os seus termos e a decorá-los. De início, cometi erro atrás de erro. (Na verdade – e estremeço ao escrever isto –, nunca deixei de os cometer.) Mas ela mostrou-se sempre simpática e relaxada, pronta a ajudar-me: parecia ver os meus erros como simples tontice, como os de uma criança que ainda troca palavras ou não as consegue pronunciar correctamente.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;Também não foi fácil lidar com os outros. Com as nossas famílias, desde logo. Cristina vivia mais ou menos resguardada do mundo, contactando apenas familiares e amigas da tia, para além dos médicos a que ia duas vezes por mês. Houvera um tempo em que a medicina se interessara seriamente por ela. Tinham sido efectuadas dezenas de testes ao seu cérebro, tivera de submeter-se a consultas com os mais variados «especialistas», haviam-se discutido viagens ao estrangeiro e tratamentos alternativos – tudo para nada, pelo menos no que lhe dizia respeito (desconheço se a medicina evoluiu alguma coisa com todo esse estudo). Às vezes eu perguntava-me se teria sido melhor que algum dos especialistas tivesse encontrado a cura. Chegava à conclusão de que, para ela, provavelmente teria sido. (Agora – como poderia ser de outra forma? – já não tenho dúvidas.) Para mim, todavia, achava que não. Fosse ela uma rapariga &apos;normal&apos;, é possível que não me tivesse despertado tanto interesse. Provavelmente &lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;nem nos teríamos conhecido, pois não haveria razão para ela acompanhar a tia com tanta frequência. Enfim, de que vale perder tempo a pensar nisto? A medicina ainda não soluciona (nem sequer percebe) todos os problemas do ser humano e Cristina era como era. Tal como os membros das nossas famílias – incluindo os meus pais – que viam com apreensão o nosso relacionamento.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;Depois de passarmos a viver juntos, eu fazia questão de que tivéssemos uma vida tão normal quanto possível. Arrendámos um apartamento perto do meu emprego, o que nos permitia almoçar juntos todos os dias. A princípio, receando deixá-la andar sozinha pelas ruas, era eu que ia almoçar com ela mas depois percebi que não a podia manter presa em casa e, tendo-me certificado de que conhecia bem o curto trajecto, aceitei que por vezes viesse ter comigo. Ao fim-de-semana saíamos e dávamos passeios no parque e sentávamos em esplanadas a observar as outras pessoas. A nossa conversa era sempre motivo de interesse para os ocupantes das mesas mais próximas, que nos olhavam de soslaio, uns divertidos, outros ligeiramente incomodados, como se receassem que a qualquer momento pudéssemos revelar-nos maníacos assassinos. Ao princípio, eu próprio ficava incomodado, percebendo estar a ser classificado como louco, mas depois habituei-me. No fundo, que me importava a reacção alheia?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: %value; font-size: small;&quot;&gt;Nunca casámos. Cheguei a pensar nisso mas não conseguia ver como a poderia levar a dizer «sim» («verdade») no momento certo quando ela nem sequer entenderia a pergunta. Sendo que não bastaria ela compreender a pergunta: seria ainda preciso convencer as autoridades de que ela casava voluntariamente, apesar de não responder «sim» mas «verdade». De qualquer modo, casar não me era fundamental e, se cheguei a sondá-la acerca do assunto, foi por receio de que ela o desejasse e a minha falta de proposta a desiludisse. Afinal, não deu grande importância à questão.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;Mas houve momentos difíceis, claro, temas que, esses sim, ela considerava importantes. Por exemplo, Cristina gostava de crianças e desejava ser mãe. Mas ter filhos com ela era um passo que eu não me atrevia a dar. Os médicos que a acompanhavam (inúteis, uma vez que nem sequer se davam ao trabalho de tentar comunicar verdadeiramente com ela) garantiam existir sérias hipóteses do problema dela ser geneticamente transmissível. Tal possibilidade era já bastante assustadora mas eu tinha ainda outros receios. Mesmo que os nossos filhos nascessem &apos;normais&apos;, que língua aprenderiam? A normal ou a nossa (minha e dela)? Como poderia uma criança crescer numa casa em que se falava de modo totalmente diferente da usada pelas restantes pessoas? Como poderia eu ensinar-lhes o significado habitual das palavras enquanto Cristina falava com eles usando outro? Por tudo isto, sempre que ela abordava o assunto, eu fugia cobardemente e dava desculpas esfarrapadas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;Apesar dos problemas, das ocasionais incompreensões e discussões, vivemos juntos três anos e meio de quase total felicidade. Sim, apenas três anos e meio. Um instante na vida de qualquer pessoa.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;Foi numa tarde de sábado, por volta das quatro da tarde. Quando Cristina me largou a mão e começou a atravessar a rua, eu vi a carrinha. Em pânico, gritei: «Cuidado!» Ela parou e rodou com um sorriso amplo na face. Antes de poder falar, a carrinha atropelou-a. Foi projectada vários metros e ficou estendida no asfalto, inconsciente, com sangue a escorrer de uma ferida na cabeça. Corri para ela, agarrei-a, gritei-lhe, mas não voltou a recuperar os sentidos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;Passaram semanas e sinto-lhe a falta. Houve muitos períodos em que não foi fácil viver com ela. Em que tive vontade de desistir. Ao pensar nesses momentos, sinto vergonha. Parece-me que fui muitas vezes fraco, que não estive à altura. Mas pior, incomensuravelmente pior, é não conseguir deixar de pensar que o meu erro pode ter sido intencional. Minutos antes do acidente, tínhamos discutido. Foi por causa da discussão que ela me largou a mão e começou a atravessar a rua sozinha. Disse-me: «Sopra» («larga» ou «larga-me») e saiu disparada. E, desde esse instante, não tenho parado de me questionar se, quando gritei «cuidado!», o fiz verdadeiramente em pânico, recorrendo à linguagem que me ensinaram desde criança, ou com perfeita consciência de que, para ela, «cuidado» significava todas as variações de «amar», incluindo «amo-te».&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/11315.html</comments>
  <lj:replycount>4</lj:replycount>
  <category>contos do tamanho certo</category>
</item>
<item>
  <guid isPermaLink='true'>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/11023.html</guid>
  <pubDate>Fri, 07 Dec 2012 12:55:22 GMT</pubDate>
  <title>Música contemporânea</title>
  <author>José António Abreu</author>
  <link>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/11023.html</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Genial compositor de música contemporânea, atingiu a fama através de obras como a &lt;em&gt;Sinfonia Contrapuntística&lt;/em&gt;, em que metade dos trezentos executantes entrechocava garrafas de &lt;em&gt;Coca-Cola&lt;/em&gt; enquanto, de forma assíncrona, a outra metade fazia o mesmo com latas de &lt;em&gt;Pepsi&lt;/em&gt;, a cantata &lt;em&gt;Sons da Exclusão&lt;/em&gt;, para soprano gaga, tenor fanhoso, barítono com dislalia, um coro de mudos, outro de pessoas afectadas por síndrome de tourette e uma orquestra de deficientes motores, e a sequência &lt;em&gt;Ruídos Corporais&lt;/em&gt;, que inclui peças tão diversas como a &lt;em&gt;Sinfonia de Tosses&lt;/em&gt; (composta após a morte do pai com tuberculose)&lt;em&gt;, &lt;/em&gt;o &lt;em&gt;Concerto para Pigarreio e Três Espirros (Um dos Quais Contido)&lt;/em&gt; e o divertimento &lt;em&gt;Arrotos e Manifestações de Gases.&lt;/em&gt; Maníaco da perfeição, discordava frequentemente da forma como as suas obras eram apresentadas, tendo mantido polémicas com vários maestros. Gostava de marcar presença nos concertos. Detestava ouvir o público tossir ou arrastar os pés.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/11023.html</comments>
  <lj:replycount>0</lj:replycount>
  <category>microcontos</category>
</item>
<item>
  <guid isPermaLink='true'>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/10820.html</guid>
  <pubDate>Sat, 11 Aug 2012 23:14:16 GMT</pubDate>
  <title>Carne</title>
  <author>José António Abreu</author>
  <link>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/10820.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Ele era médico legista e ela não conseguia deixar de pensar nisso enquanto faziam amor. Ele tocava-lhe de uma forma tão precisa, tão leve, tão &lt;em&gt;cirúrgica&lt;/em&gt; que ela se sentia mais exposta do que alguma vez no passado. Sabia que ele conhecia em pormenor todos os músculos, todos os tendões, todas as artérias e todas as veias do seu corpo. Sentia-lhe os dedos deslizando pelos braços, em redor do peito, através do abdómen e não conseguia evitar um arrepio de temor. Como se, a qualquer instante, com um gesto suave e preciso, usando uma unha como bisturi, ele pudesse abrir-lhe um golpe na carne e entrar-lhe verdadeiramente no corpo. Estava consciente de que era uma estupidez pensar tal coisa: ele era amável, atencioso, até um pouco tímido (e trazia sempre as unhas bem curtas). Mas não conseguia evitá-lo. Na realidade, era forçada a admitir que não desejava evitá-lo. Que procurava a sensação. Que a transformara numa parte essencial do acto amoroso. As capacidades dele para ler o corpo humano, para identificar zonas frágeis, para o desmembrar, se fosse preciso, haviam-se tornado num elemento de excitação adicional.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Meses depois do início da relação abordou finalmente o assunto. Perguntou-lhe: «O meu corpo é muito diferente dos corpos com que lidas no trabalho?» Os olhos dele arregalaram-se de surpresa. Ela ponderou se teria sido a primeira mulher a colocar-lhe a pergunta. Depois pensou que talvez a surpresa dele resultasse não de ser a primeira vez que lhe faziam a pergunta mas de, tanto tempo decorrido após o início da relação, já não a esperar. Antes de ele responder, acrescentou: «O que quero dizer é: quando acaricias o meu corpo notas as semelhanças com os corpos que autopsias? No fundo, é só carne, não é?» As palavras soaram-lhe inadequadas e brutais e ela arrependeu-se de ter iniciado aquele diálogo. Mas ele recuperara a expressão de beatitude. Quase sorria, na verdade. Disse: «Não, não noto as semelhanças. Noto as diferenças.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Foi nesse momento que a relação deles entrou numa nova fase.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/10820.html</comments>
  <lj:replycount>0</lj:replycount>
  <category>microcontos</category>
</item>
<item>
  <guid isPermaLink='true'>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/10568.html</guid>
  <pubDate>Sat, 11 Aug 2012 22:31:33 GMT</pubDate>
  <title>Notas soltas (5)</title>
  <author>José António Abreu</author>
  <link>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/10568.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Em parte, também mato pessoas porque não posso – nem quero – fazer outras coisas que me permitiriam desafiar os limites do que é considerado normal. Abomino a conformidade mas também o espalhafato e a falta de inteligência. Se sabotasse o resultado do meu trabalho seria despedido após umas quantas advertências. Se me juntasse a uma claque de futebol para poder usar de violência de forma mais ou menos irrestrita teria de suportar a companhia de energúmenos – e de fingir ser um deles. Roubar não é opção – não desejo fazer algo apenas por ser ilegal. Na verdade, todos estes actos são ainda normais. Ninguém estranha que se torpedeie o trabalho ou que se roubem objectos. Ninguém estranha, ainda que procure convencer-se do contrário, que se exorcizem tensões destruindo o se apanha à frente. Não – já o escrevi: se um dia for apanhado, ninguém poderá dizer que fiz o que fiz por qualquer razão normal, mesquinha, &lt;em&gt;compreensível&lt;/em&gt;. Hão-de coçar a cabeça, tentando perceber. E falharão, claro, porque as tentativas permanecerão tímidas, confinadas ao lugar-comum, balizadas pelo medo de entrar em áreas de onde talvez não se saia com facilidade. As pessoas não estão interessadas em chegar à verdade. &lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Ouço-as até perguntando: que verdade? E sinto-me forçado a sorrir.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/10568.html</comments>
  <lj:replycount>0</lj:replycount>
  <category>séries</category>
  <category>notas soltas</category>
</item>
<item>
  <guid isPermaLink='true'>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/10378.html</guid>
  <pubDate>Thu, 09 Aug 2012 12:44:24 GMT</pubDate>
  <title>Conversas com um cínico (9)</title>
  <author>José António Abreu</author>
  <link>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/10378.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;color: black; font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«No fundo, não és assim tão diferente de outras pessoas. Também sonhas com uma relação perfeita.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: black;&quot;&gt;«Não.»&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: black;&quot;&gt;«Então?»&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: black;&quot;&gt;«Não existe tal coisa. Foi o que te acabei de dizer. Pelo menos entre duas pessoas de carne e osso.»&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: black;&quot;&gt;«Sim, já sei: só entre uma pessoa e &lt;em&gt;coisas&lt;/em&gt;.»&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;color: black;&quot;&gt;«Pelo menos estiveste a ouvir. Mas não só. Também é possível entre uma pessoa e uma imagem. Pensa na Charlize Theron. Agora pensa que estás na cama com ela. Que fantasia fantástica, hã? E podes tê-la milhares de vezes, durante anos, sempre perfeita. Sabes porquê? Porque não conheces a Charlize Theron.»&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/10378.html</comments>
  <lj:replycount>2</lj:replycount>
  <category>séries</category>
  <category>conversas com um cínico</category>
</item>
<item>
  <guid isPermaLink='true'>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/10232.html</guid>
  <pubDate>Fri, 15 Jun 2012 21:20:11 GMT</pubDate>
  <title>Otorrino</title>
  <author>José António Abreu</author>
  <link>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/10232.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Pára com isso.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Não consigo. É uma sensação horrível. É como borbulhas, aquelas que ficam com crostas e dão vontade de arrancar, sabes?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;E Manuel escarafunchava o interior do nariz com a ponta do dedo mindinho e tirava de lá pedaços de muco seco que rodava entre a ponta do indicador e do polegar até formar bolinhas e depois atirava para o chão, a menos que estivesse em casa e Filomena, a mulher, andasse por perto, caso em que as ia pôr no balde do lixo ou colocava em pedaços de papel que dobrava cuidadosamente e deixava em cima da mesinha em frente ao televisor, de onde por vezes se esquecia de os retirar, tendo que ser Filomena a fazê-lo. Para além de remexer no interior do nariz, Manuel também se esforçava por retirar cera dos ouvidos com a ponta dos indicadores ou dos mindinhos mas menos amiúde e quase sempre com fracos resultados. Tanto fazia estas coisas distraidamente, sentado dentro do seu velho Fiat Uno ou no sofá a ver o Benfica, como outras pessoas acariciam o lóbulo da orelha ou fazem rodar os polegares um em torno do outro, como de modo consciente, mergulhado numa mistura de desespero (por a sensação se lhe ter tornado intolerável) e irritação (por não ter forças suficientes para o evitar). Filomena detestava vê-lo de dedo enfiado no nariz e fartava-se de lhe pedir para se controlar. «Nem à frente dos meus pais páras com isso e sabes como o meu pai fica…» Ele respondia que lhe era impossível, que o impulso depressa se tornava insuportável. «Quando tento controlar-me não fico bem. Fico com uma impressão horrível. Uma comichão no nariz, a sensação de que lá tenho uma coisa estranha, às vezes até parece viva.» Filomena comprou-lhe lenços de papel e cotonetes mas, por muitos esforços que Manuel fizesse para os usar, voltava sempre ao uso dos dedos. «O hábito vem-me desde criança», justificava-se. «Não consigo parar.» Filomena amava-o e ia aguentando. Tentava nem reparar mas quanto mais esforços fazia para não reparar, mais impressão aquilo lhe fazia também a ela. Curiosamente, os períodos em que Manuel estava constipado eram os melhores pois o ranho ficava demasiado líquido para, por um lado, provocar a tal sensação que tanto o incomodava, e por outro, permitir o uso da ponta dos dedos. Quando estava constipado, Manuel era mesmo forçado a utilizar os lenços de papel, que se amontoavam então na mesinha em frente do televisor até Filomena os levar para o lixo. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Estavam casados há três anos e meio e – mais um factor que não ajudava a que o pai dela encarasse Manuel com bons olhos – ainda não tinham filhos quando Manuel perdeu quatro dedos da mão direita na prensa de fabrico de tabuleiros metálicos que operava no emprego. Ele tinha que colocar a chapa na prensa, carregar num pedal para fazer descer a parte móvel e, depois de ela subir novamente, retirar a chapa já com o formato do tabuleiro. Era um trabalho perigoso que Manuel fazia há anos, sempre com imenso cuidado. Prometera a Filomena nunca facilitar. Mas naquele dia distraiu-se e carregou no pedal cedo demais. Da mão direita, só lhe restou o polegar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Nem assim o hábito desapareceu mas, durante uns tempos, foi-lhe mais difícil extrair cera da orelha direita. Até ao acidente, apenas usava a mão esquerda na orelha do mesmo lado e, se não teve dificuldades em habituar-se a usá-la também no nariz, empregá-la na orelha direita constituiu um desafio muito maior. Porém, não havia escolha: o polegar, único dedo que lhe restava na mão direita, era demasiado grosso para o canal auditivo. Com esforço e perseverança (duas das suas melhores qualidades, todos o reconheciam), lá conseguiu habituar-se. Filomena, que parecera ficar mais perturbada com o acidente do que ele, dizia: «Nem assim deixas de fazer isso...» Mas dizia-o com resignação, não de forma agressiva. Como se, depois do acidente, aquele acto tivesse passado a ser uma coisa sem grande importância. Já o sogro de Manuel, dono de uma pequena e escura oficina de automóveis, passara a encará-lo ainda com mais desprezo: para além de ser pobre, ter aquele hábito asqueroso e não lhe dar um neto, Manuel nem sequer era capaz de evitar perder os dedos numa máquina que, sendo perigosa, era tão fácil de operar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Regressou ao trabalho dois meses após o acidente, a mão direita transformada num coto espalmado e arredondado, a que o polegar, espetado na parte lateral, parecia nem pertencer. Filomena não queria que ele voltasse a trabalhar na prensa mas Manuel explicou-lhe que, depois da Inspecção do Trabalho e da Seguradora terem levantado imensos problemas ao patrão por causa das questões de falta de segurança (parece que a lei não permitia que as prensas fossem accionadas por pedal sem que existissem meios de protecção da zona perigosa), todas as prensas da empresa haviam sido modificadas e agora eram comandadas através de dois botões que tinham de ser premidos em simultâneo. «Chama-se comando bimanual», explicou Manuel a Filomena. E havia ainda uma barreira fotoeléctrica para garantir que as mãos do operador não estavam na zona perigosa «Se estiverem, a prensa não fecha». As explicações não sossegaram Filomena mas o que podia ela fazer? Os empregos eram escassos e necessitavam do dinheiro do salário dele, uma vez que o dela, funcionária no refeitório da escola secundária da vila, mal chegava para pagar o empréstimo do apartamento.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Passou-se cerca de um ano. Manuel habituou-se a colocar e a retirar a chapa com a mão esquerda e a premir o botão direito do comando bimanual com o polegar. A princípio, o patrão, um homem gorducho de cinquenta e tal anos que também era dono de um dos quatro cafés e do único talho da vila, não gostara da solução dos dois botões porque a cadência de produção revelava-se ligeiramente mais baixa do que com o pedal. Ainda por cima, do acidente resultara uma multa para a empresa e isso trazia-o irritado. Fora uma batelada de dinheiro, «um roubo», queixava-se a quem encontrava pela frente. Fazia até questão de o dizer repetidamente ao próprio Manuel, dando a entender que Manuel estava obrigado a compensá-lo. Uma vez perguntou-lhe: «Então agora como é que fazes para tirar macacos do nariz, Manel? Usas o dedo mindinho da mão esquerda para os dois buracos? Aposto que também demoras mais…» E riu-se com gosto, enquanto Manuel permanecia em silêncio. Todavia, decorrido um par de meses as coisas voltaram a entrar na rotina.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;E então, um dia depois da prensa ter estado desligada para operações de manutenção, Manuel ficou sem quatro dedos e meio da mão esquerda: os quatro correspondentes aos que perdera na mão direita e ainda a extremidade do polegar. Como fora possível, quis saber Filomena depois de ele sair do tratamento. A máquina não era segura? Não parava se a mão estivesse lá dentro? Manuel explicou-lhe que os colegas da manutenção tinham deixado os sistemas desactivados. Um esquecimento ou talvez preguiça de ligar tudo outra vez. «Devíamos arranjar um advogado», disse Filomena. Mas não o fizeram. Não tinham dinheiro para isso e o patrão nunca perdoaria a Manuel se o fizesse. Far-lhe-ia a vida negra.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Apesar das perguntas e das referências ao advogado, Filomena encaixou o acontecido como se já o esperasse. Tornou-se mais calada, mais triste, mais resignada. Manuel detestava vê-la assim mas não sabia o que fazer para a animar. Poucos dias depois de sair do hospital percebeu que ela tinha ainda mais razões do que ele pensava para estar assustada, quando se sentou no sofá ao lado dele e, sem rodeios, lhe comunicou que estava grávida. Então Manuel ficou pelo menos tão assustado como ela.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Mas, inesperadamente, o acidente acabou por ter consequências positivas. Manuel, que, na sequência do primeiro, já recebia uma pequena pensão por incapacidade, foi considerado inapto para o trabalho (o que lhe permitiu evitar o ex-patrão, outra vez às voltas com a Inspecção e mais irritado do que nunca) e passou a receber uma pensão quase igual ao salário. Apesar disso, ainda tentou arranjar outro emprego, de modo a aumentar o rendimento agora que a família ia crescer, mas ninguém se dispôs a aceitar um trabalhador com apenas um polegar e meio no conjunto das duas mãos. Assim, ficava em casa, sentado a ver televisão enquanto Filomena ia para o emprego. O sogro não gostava de o saber inactivo enquanto a filha, grávida, continuava a trabalhar («Lá por não ter dedos, não quer dizer que não possa fazer qualquer coisa; prefere é ficar de papo para o ar a coçar os tomates», ouviu-o dizer uma vez) mas, de forma geral, a gravidez da filha deixara-o menos agressivo. Pelo que o maior problema de Manuel, o problema que lhe ocupava os dias e o desesperava, era ser-lhe agora quase impossível escarafunchar nariz e ouvidos. De facto, sem acessórios era mesmo totalmente impossível. E as cotonetes, que já antes não resultavam, haviam-se tornado ainda mais inúteis, devido à dificuldade que ele tinha em manejá-las. Experimentou segurá-las de todas as maneiras possíveis (entre o polegar direito e palma da mão direita, entre o polegar direito e o coto do polegar esquerdo, entre o polegar direito e a palma da mão esquerda, entre o coto do polegar esquerdo e a palma da mão direita com o polegar direito arqueado por cima do coto do polegar esquerdo de modo a providenciar um acréscimo de estabilidade, entre ambas as palmas) mas nenhuma resultava. Quando, no final do dia, Filomena chegava, cansada, corada e cada vez mais redonda, Manuel encontrava-se sempre à beira do desespero. E então, porque o amava e não suportava vê-lo sofrer, Filomena sentava-se junto dele e, com os seus dedos finos terminados em unhas que fazia questão de arranjar pelo menos todos os domingos à noite, antes da hora de dormir, passava vários minutos a &lt;span style=&quot;color: black;&quot;&gt;extrair-lhe burriés do nariz e cera dos ouvidos. &lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;color: black;&quot;&gt;Depois ia lavar as mãos e fazer o jantar&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;color: black;&quot;&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/10232.html</comments>
  <lj:replycount>0</lj:replycount>
  <category>contos do tamanho certo</category>
</item>
<item>
  <guid isPermaLink='true'>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/9745.html</guid>
  <pubDate>Fri, 11 May 2012 07:43:24 GMT</pubDate>
  <title>O moralista disléxico</title>
  <author>José António Abreu</author>
  <link>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/9745.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;O moralista disléxico chamava-se Erasmo Coina de Carvalho e não conseguia evitar enganar-se ao dizer ou escrever o nome.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/9745.html</comments>
  <lj:replycount>0</lj:replycount>
  <category>microcontos</category>
</item>
<item>
  <guid isPermaLink='true'>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/9610.html</guid>
  <pubDate>Thu, 10 May 2012 19:20:27 GMT</pubDate>
  <title>Conversas com um cínico (8)</title>
  <author>José António Abreu</author>
  <link>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/9610.html</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Pergunto-lhe: «Posso ser sincero?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Pensei que estávamos a ser sinceros.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Isso tudo, essas tuas teorias, são só fachada.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Desta vez sorri abertamente. «Fachada? Lá no fundo, sou um romântico, é isso que queres dizer»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Nem mais&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Sabes o que é o romantismo?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Suspiro. «Nem vou tentar responder. O que é?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Querer o impossível. A perfeição, eternamente. Ora eu quero a perfeição. Mas sei que a perfeição é frágil. Que é impossível mantê-la eternamente.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Então és um quê? Um mezzo-romântico?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Solta uma gargalhada. Diz: «Boa.» Mas depois fica sério e parece considerar seriamente a questão. «&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Não se deixa de ser romântico por saber que o impossível é, por definição, impossível. Ponhamos as coisas da seguinte maneira: &lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt; não acreditando que seja possível amar para sempre, acredito que é sempre possível amar.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Vai-te foder.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Ri-se.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/9610.html</comments>
  <lj:replycount>0</lj:replycount>
  <category>conversas com um cínico</category>
  <category>séries</category>
</item>
<item>
  <guid isPermaLink='true'>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/9363.html</guid>
  <pubDate>Tue, 08 May 2012 07:41:17 GMT</pubDate>
  <title>Funeral</title>
  <author>José António Abreu</author>
  <link>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/9363.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Repara no coveiro.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Laura olhou primeiro para a esquerda e depois para a direita. Descobriu o coveiro ligeiramente afastado do grupo, apoiado na pá. Olhava o caixão fixamente e parecia alheado do que o padre dizia.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Não! Ele está…?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Hum-hum.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Filipe e Laura estavam na parte de trás do aglomerado de pessoas rodeando a cova sobre a qual, assente em dois barrotes de madeira, se encontrava o caixão. A terra era escura. Parecia molhada apesar de não estar a chover.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Filipe sussurrou: «Ele conhecia-a?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Laura rodou a cabeça apenas um tudo-nada na direcção de Filipe: «Aqui toda a gente se conhece. Mas que eu saiba não o suficiente para chorar no funeral dela. Nem o João está a chorar.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;João era o filho mais velho de D. Lurdes, a falecida. Filipe procurou-o com os olhos. Não, não estava a chorar. Parecia triste mas também um pouco farto daquilo tudo. Filipe conhecia-o mal e não gostava dele.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Então a que propósito vem aquilo?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Falara demasiado alto. Um homem à frente deles olhou para trás. Filipe esboçou um sorriso apologético e Laura susteve a resposta. Filipe aproveitou a pausa para tentar perceber o que o padre dizia (qualquer coisa sobre D. Lurdes ter vivido nesta vida sabendo que devia preparar-se para a próxima) e depois para dar nova olhadela ao coveiro. Parecia já ter passado os setenta anos de idade mas talvez isso se devesse ao aspecto desmazelado: vestia uma camisola bege suja de terra e umas calças de uma tonalidade tão parecida com a cor da terra que era difícil saber se não estavam apenas imundas. Quando às botas, não havia dúvidas: manchadas e com rasgões, ameaçavam desintegrar-se a qualquer momento. Não era alto, tinha meia dúzia de quilos em excesso concentrados em torno da cintura, uma barba mal feita e cabelo que não devia ser lavado há semanas. Mas a particularidade mais estranha era a forma como a pálpebra direita pendia sobre o globo ocular: fazia com que, visto do ponto em que Filipe se encontrava, parecesse estar sempre a olhar para o chão ou a pedir desculpa. Continuava a chorar. Fazia-o em silêncio, sem qualquer trejeito ou movimento, como se nem percebesse que chorava.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Mas que raio é que um tipo assim podia ter em comum com a velha? Estaria apaixonado por ela desde miúdo?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Laura hesitou. «Uma vez a Sandra disse-me que o velho Firmino teve desaguisados com muita gente. O coveiro é capaz de ter sido uma dessas pessoas.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Sandra era a melhor amiga de Laura e esposa de João. Por instantes, o cérebro de Filipe entreteve-se a analisar a estranheza do uso do termo “desaguisados” por parte de Laura e não conseguiu perceber o que ela efectivamente dissera.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Hã?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«O Firmino era um mulherengo.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«E?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«E meteu-se com mulheres casadas. Entre as quais a do coveiro.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Não estou a perceber onde queres chegar. O Firmino não morreu há uns cinco anos? Por que é que o coveiro havia de estar a chorar no funeral da viúva do homem que lhe comeu a mulher?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;O homem que antes se virara voltou a fazê-lo. Vestia um fato cinzento-rato de mau corte, uma camisa branca e a inevitável gravata preta. Tinha ar de presidente da junta ou qualquer coisa assim. A irritação no seu olhar era agora indubitável. Filipe concedeu-lhe um trejeito breve mas nada mais; estava demasiado interessado na história para se dar ao trabalho de voltar a fingir contrição.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Sem o olhar, Laura teve um sorriso fugaz. Disse: «Pode ter havido qualquer coisa depois disso.» Estava deslumbrante, de vestido preto. Houvera um par de ocasiões durante a cerimónia na igreja em que Filipe sentira vontade de fazer amor com ela. De uma das vezes, tivera mesmo que disfarçar uma erecção. E não era a primeira vez que algo do género acontecia. Filipe começava a suspeitar que situações inconvenientes despoletavam nele desejos sexuais. Laura disse: «Eles podem ter sido amantes desde aí. Os amantes traídos, entretanto tornados viúvos.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Filipe voltou a olhar para o coveiro. Era difícil ver nele o amante de alguém. Mas não era menos difícil imaginar a velha D. Lurdes, que Filipe conhecera apenas na capela mortuária, já estendida dentro do caixão, tendo sexo com alguém. De repente, Filipe percebeu que nem conseguia imaginar pessoas de idade avançada tendo sexo. Isso perturbou-o durante alguns segundos. Era a primeira vez que pensava no assunto e pareceu-lhe simultaneamente lógico – porque é que havia de desejar visualizar velhos tendo sexo? – mas também deprimente – como se constituísse uma falha dele, um indício de falta de imaginação e, ao mesmo tempo, um desrespeito para com a sexualidade dos idosos. Como penitência, prometeu a si mesmo procurar vídeos de sexo na terceira idade em &lt;em&gt;sites&lt;/em&gt; porno na internet logo que tivesse oportunidade.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Nem de propósito, o padre dizia qualquer coisa acerca de respeitar os outros, coisa que D. Lurdes sempre fizera. Filipe prestou-lhe atenção durante um par de segundos antes de se inclinar de novo para Laura.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Não seriam eles os amantes logo desde o início, em vez do Firmino e da mulher dele?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Laura rodou a cabeça para lhe atirar um olhar de censura.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Tu e a tua mente suja…»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Se o Firmino era mulherengo, até merecia. E parece-me uma hipótese mais lógica do que a tua versão romântica de duas almas solitárias e feridas encontrando-se na velhice.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Laura voltou a olhar em frente. O padre parecia estar a terminar.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«A Sandra disse-me uma vez que o caso do Firmino com a mulher do coveiro aconteceu mesmo. O coveiro apanhou-os e deu uma sova na mulher.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Hã?» Filipe olhou de novo para o sítio onde o velho continuava apoiado na pá. Parecia não se ter mexido um milímetro. «Estás a falar a sério?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Era coisa corrente, por aqui.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Fico satisfeito… quer dizer, satisfeito não, fico… sei lá, fico banzado que encares a coisa de forma tão natural.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Laura encolheu os ombros e disse «Ámen» em coro com o resto das pessoas. O final da cerimónia fez com que toda a gente se descontraísse – que trocasse a perna de apoio, se movimentasse ligeiramente ou falasse com a pessoa do lado. Filipe perguntou: «E o Firmino?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«O Firmino o quê?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Quando o coveiro os apanhou. O que é que fez?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Fugiu.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Foda-se, não me digas!»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;As palavras haviam-lhe saído demasiado altas. Embora o nível de ruído fosse agora superior, várias pessoas voltaram-se e dirigiram-lhe olhares de censura. O tipo que parecia presidente da junta resmungou qualquer coisa para uma mulher baixinha e rechonchuda que dava ideia de ter apenas uma expressão facial, algures entre a resignação e a bovinidade. Se era casada com aquele tipo, pensou Filipe, não se podia estranhar o facto.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Laura deu-lhe uma pancada no braço e puxou-o para trás. «Fala baixo. Só me fazes passar vergonhas!»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Recuaram três ou quatro metros enquanto o pessoal da funerária começava a tratar de descer o caixão para dentro da cova.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«E depois?» perguntou Filipe.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Depois o quê?» Agora Laura já se permitia encará-lo. Tinha aquele ar de quem lida com uma criancinha que Filipe às vezes achava delicioso, outras insultuoso. Teve vontade de a beijar. Isso sim, havia de dar motivo de conversa pelas terrinhas das redondezas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«O que aconteceu? O coveiro foi atrás dele ou assim?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Não sei, acho que não.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Mas logo que teve hipóteses, vingou-se e foi para a cama com a mulher dele.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Se tivesse sido apenas vingança achas que o coveiro estaria a chorar?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Filipe olhou de novo para o homem. Tinha mudado ligeiramente de posição, segurando a pá ao lado do corpo mas já não se apoiando nela, e encontrava-se demasiado longe e quase de costas para Filipe conseguir perceber se ainda chorava. Provavelmente não.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Sandra aproximou-se. Estava quase tão atraente como Laura, apesar de ter umas olheiras profundas. Filipe afastou a velha ideia do &lt;em&gt;ménage à trois&lt;/em&gt;. Não era momento para fantasias daquelas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Obrigado por terem vindo. Hoje o João está um bocado alheio a tudo mas sei que aprecia que tenham feito a deslocação.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Enquanto Laura dava uma resposta qualquer, Filipe pensou que João raramente apreciava o que quer que fosse que tivesse a ver com ele, Filipe. Será que se apercebia das fantasias que ele tinha com Sandra? Ou – e Filipe quase deu um salto ao pensar na hipótese – será que tinha fantasias similares com Laura e via Filipe como obstáculo? Ou ainda, considerando que Filipe conhecera Laura e Sandra muito antes de João o fazer, desconfiaria que já fora para a cama com Sandra? (Não fora mas tinha pena. A questão surgia-lhe até como uma falha no seu passado; uma oportunidade perdida.)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Filipe?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Hã? Desculpa.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Laura suspirou, ligeiramente irritada. «Às vezes parece que desapareces para parte incerta.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Desculpa.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Sandra disse: &lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Tenho de voltar para junto do João.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Filipe disse: «Só uma coisa. Reparaste no coveiro?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«O que é que tem?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Estava… hum… parecia muito combalido.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Sandra encolheu os ombros.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Não reparei. Mas não digam ao João. Com a disposição com que ele está hoje, mais vale não lhe meter ideias na cabeça.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;E afastou-se. Laura passou o braço esquerdo em torno da cintura de Filipe.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«O que é que se passa contigo?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Nada.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Vamos andando?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;A maior parte das pessoas já se dirigia para a saída. Apenas João, Sandra e mais três ou quatro pessoas ainda estavam junto à sepultura. O coveiro enterrou a pá na terra solta e começou a atirá-la lá para dentro. Filipe não conseguia ver-lhe a cara.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Vamos.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Caminharam até à saída. O cemitério ficava junto a uma pequena capela e a um terreno onde anualmente se realizava uma festa em honra de um santo qualquer. Quando havia casamentos ou funerais, servia de parque de estacionamento.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Sabes», disse Filipe de repente, «sinto-me como um peixe fora de água nestes meios pequenos. Parece-me que as pessoas seguem uma lógica diferente.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Susana olhou-o de lado e sorriu. «Tadinho. Um menino citadino, é o que tu és. Só estás habituado a lidar com pessoas no metro. Ou em discotecas.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Não gozes.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Filipe: as pessoas, sejam novas ou velhas, odeiam-se, apaixonam-se e fodem em todo o lado. Mesmo nos meios pequenos.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Filipe estremeceu ligeiramente. D&lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;estrancou o carro. Contornava-o quando viu João e Sandra sair do cemitério. Hesitou. Disse: «Eu venho já.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Ignorou o aviso no olhar de Laura. Em passo rápido, voltou a entrar no cemitério, decidido a falar com o coveiro.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Encontrou-o de costas para o corredor de acesso, a atirar pazadas de terra para o buraco. Em poucos minutos, enchera-o quase por completo. Filipe parou a cerca de dois metros. Abriu a boca para falar mas percebeu que não sabia o que dizer. A certeza que o fizera voltar a entrar no cemitério esvaíra-se numa fracção de segundo. O que raio ia perguntar? «Olhe, desculpe, por que é que estava a chorar?» E o que faria se o homem reagisse mal?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Permaneceu ali dez ou quinze segundos, meio esperançado de que o velho notasse a sua presença e o encarasse, e depois, pensando que Laura tinha razão (grande  merda, era mesmo um citadino), deu meia volta e reencaminhou-se para a saída.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;No carro, Laura manteve o silêncio durante vários minutos antes de perguntar: &lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Então?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Filipe já desistira de tentar arranjar uma boa desculpa.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Não cheguei a falar com ele.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Laura não fez comentários. Mexeu as pernas. O vestido subiu, expondo-lhe os joelhos. Filipe pensou que era uma merda que ainda faltasse mais de uma hora para chegarem a casa.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/9363.html</comments>
  <lj:replycount>4</lj:replycount>
  <category>contos do tamanho certo</category>
</item>
<item>
  <guid isPermaLink='true'>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/9148.html</guid>
  <pubDate>Tue, 01 May 2012 19:49:06 GMT</pubDate>
  <title>Notas soltas (4)</title>
  <author>José António Abreu</author>
  <link>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/9148.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;As pessoas horrorizam-se com o particular, com o específico. Se enviasse para os jornais estas considerações, poucas pessoas as leriam. Talvez nem fossem publicadas. Mas se descrevesse uma morte concreta, fornecendo pormenores sobre como tudo acontecera (as súplicas, os gritos, os familiares ou o Deus por quem a vítima – que termo impróprio – havia clamado, o pequeno sinal que tinha sob o seio esquerdo e o prazer que me dera cortá-lo, logo antes de lhe fazer o mesmo ao mamilo), nesse caso as pessoas leriam com fascínio. Duzentas mil mortes num tsunami no Extremo Oriente seriam nada sem imagens. Uma morte, com as imagens certas, ou até mesmo só com as palavras certas, causa mais horror. Imagino objecções: o tsunami tem causas naturais, não há maldade envolvida. Bom, talvez (a menos que se acredite em Deus, caso em que todo o horror devia ser dirigido para Ele, porque afinal mata muito mais e de formas mais variadas e criativas do que eu alguma vez terei hipótese de fazer). Mas uma pessoa que fica entalada sob os escombros de uma casa, que tem as pernas esmagadas e demora dias a morrer, passa por níveis de sofrimento tão intensos e bastante mais prolongados do que aqueles que eu tenho possibilidade de infligir (não por falta de esforço da minha parte, note-se). E nem sequer chega a ver o rosto do responsável pela sua morte. Eu mostro-me. As minhas vítimas (que termo irritante) vêem-me. Sabem sempre quem as mata. Como escrevi antes, as mais inteligentes chegam a perceber por que morrem.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Mas é possível que ainda venha a descrever alguns casos. Afinal, dizem que recordar é viver. Como, de resto, matar também o é. DeLillo escreveu-o em &lt;em&gt;Ruído Branco&lt;/em&gt; (sim, gosto de ler): matar é uma forma de afastar o medo da morte. Quando é outro que morre, comprova-se a própria vida. Inteligente, apesar de ligeiramente presunçoso. E um tudo-nada teórico. Mas que experiência prática tem DeLillo?&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/9148.html</comments>
  <lj:replycount>0</lj:replycount>
  <category>notas soltas</category>
  <category>séries</category>
</item>
<item>
  <guid isPermaLink='true'>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/8721.html</guid>
  <pubDate>Fri, 20 Apr 2012 07:40:02 GMT</pubDate>
  <title>Jogging</title>
  <author>José António Abreu</author>
  <link>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/8721.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Vamos tomar um café à hora de saída do emprego. Eu proponho e César aceita após um instante de hesitação. Ficamos na mesa do canto, como fazemos sempre que ela está livre. A empregada cumprimenta-nos. Sorrio-lhe, digo-lhe boa tarde, trato-a pelo nome, Anabela. César limita-se a dizer boa tarde. Observo as ancas dela enquanto se afasta. Digo: «Está cada vez melhor. Andar de um lado para o outro com a bandeja na mão deve fazer bem aos glúteos.» César esboça um sorriso mas mal roda a cabeça.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«O que se passa contigo?», pergunto.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«O que queres dizer?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Pareces em baixo.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Encolhe os ombros. Hesita. «É demasiado ridículo para contar.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Bom, agora não tens alternativa. Até porque eu adoro histórias ridículas. E sou especialista nelas, embora normalmente como personagem principal.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Ele deixa passar uns segundos. Não me olha; é como se avaliasse as minhas palavras, tentando separar a parte verdadeira da parte falsa, o humor introduzido apenas para efeito cómico da sinceridade. Ou se calhar nem as ouviu. Se calhar nem é relevante ser eu quem ali está e a questão que analisa prende-se com ele próprio. Prende-se com saber se deve contar a &lt;em&gt;alguém&lt;/em&gt; a tal coisa ridícula.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Acaba por dizer: «Sabes que costumo ir correr à beira-rio, entre a Afurada e Lavadores?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Hum, acho que já mo tinhas dito.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;A empregada regressa com os cafés e permanecemos em silêncio enquanto ela os coloca sobre a mesa. Desta vez faço um esforço para não a observar enquanto se afasta. César rasga o pacote da açúcar, despeja-o na chávena, mexe o café. Só então recomeça a falar: «Lembras-te de eu te contar que uma ou duas vezes por semana vou correr junto ao rio, do lado de Gaia?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Talvez.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Tu até me disseste que correr é das coisas que mais detestas.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Sim, já me lembro. E então?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Pára de mexer o café e pousa a colher no pires. Ergue os olhos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Sabes como no Inverno anoitece cedo, às cinco e tal é de noite? E mesmo em Fevereiro ou no início de Março, antes da mudança da hora, às seis e meia, sete, já pouco se vê?» Faço que sim com a cabeça, mais para o incentivar a continuar do que por ser necessário responder a algo tão evidente. «Na zona da Cabedelo, ali junto ao areal, há uma série de candeeiros ao longo do percurso destinado a pedestres e ciclistas. Às vezes, não sei porquê, alguns apagam-se. Não costuma acontecer a todos, apenas a alguns. Às vezes só ficam apagados dois ou três segundos, outras vezes parece que nem chegam a acender.» Bebe um gole de café. Mastiga o gosto que lhe fica na boca e depois continua: «Costumo deixar o carro naquele parque mesmo ao lado da Afurada, de onde há uns anos tiraram as barracas dos pescadores e agora estão a acabar de construir a marina. Numa tarde do final de Fevereiro vinha a regressar, depois de ter ido dar a volta na zona das praias, a seguir ao hotel Casa Branca. Eram sete e tal, para aí umas sete e meia, já estava bastante escuro. Fiz aquela curva à direita, a descer, que separa a zona do mar da zona do rio, e apercebi-me de que os candeeiros estavam apagados. Quando entrei na zona escura fiquei quase sem ver. Um gajo qualquer passou por mim, a correr na direcção oposta, e só lhe vi o vulto quando ficou para aí a um metro de distância. Por acaso apercebera-me antes mas só por causa do som dos passos e da respiração ofegante. Em parte, deve ter sido o barulho que ele fazia que provocou o que aconteceu a seguir. Nem segundos depois de ele passar, apercebi-me de um vulto mesmo à minha frente, a correr na minha direcção. Travei mas era tarde demais e chocámos de frente. Ela (era uma mulher) deu um grito (eu nem me lembro se cheguei a gritar) e, instintivamente, agarrámo-nos um ao outro. Nem sei como mas conseguimos não cair. E então vem a parte verdadeiramente estranha. Em vez de nos largarmos de imediato, sabes como é, pedirmos desculpa, perguntarmos se estava tudo bem, em vez disso, quando nos conseguimos equilibrar continuámos abraçados mais um instante, como se quiséssemos ter a certeza de que não íamos mesmo cair. Eu não a via mas sentia que era magra, que tinha o corpo firme, e não me parecia muito alta. Lembro-me de sentir as mamas dela encostadas ao estômago e a transpiração dela nos meus braços, e de notar o cheiro e a respiração a bater-me no pescoço. Foram só dois ou três segundos, sabes, e talvez eu agora até imagine mais do que realmente aconteceu, mas é como se tivéssemos passado uma barreira, como se aquele tempo tivesse tornado impossível separarmo-nos e pedirmos desculpa, como seria normal, e seguirmos cada um para seu lado. Isto se calhar não faz sentido nenhum...»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Faz. Continua.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Dou uma olhadela à sala do café. Felizmente, as mesas mais próximas estão vazias.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Beijámo-nos. Não sei como aconteceu. Mas, caramba, beijámo-nos a sério. Estávamos os dois sem fôlego por causa da corrida e precisávamos de respirar com frequência mas voltávamos a beijar-nos logo a seguir, como se não pudéssemos deixar passar muito tempo ou aquilo ia tudo por água abaixo. Empurrei-a para o lado da encosta, ou se calhar foi ela que me puxou, meti-lhe as mãos por baixo da camisola e tirei-lhe o soutien. Entretanto ela já tinha as mãos dentro dos meus calções e continuávamos a beijar-nos, e eu só sabia que ela tinha um hálito quente mas não desagradável, também naquela altura tudo me pareceria excitante, nada me faria parar, e então tirei-lhe as calças e ela baixou-me os calções e... bom, e fodemos. Não durou muito tempo, estávamos demasiado excitados – quer dizer, &lt;em&gt;eu&lt;/em&gt; estava demasiado excitado – mas foi de loucos. Tínhamos os corpos tão transpirados e eu tinha tanto calor e continuávamos com dificuldades para conseguir respirar que... enfim, já ficaste com a ideia.»&lt;/span&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Foda-se, fiquei com mais do que uma ideia, fiquei com tesão.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;O sorriso dele é fugaz.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Desculpa.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Não há problema. Acho que já não ficava assim só por causa de um relato desde o primeiro ano da universidade. Tinha um colega de apartamento, mais velho – acho que já te falei dele – que fazia questão de nos contar as suas aventuras amorosas. Eram fantásticas mas descobrimos passado uns tempos que ele as ia buscar às cartas da Penthouse americana.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;César cora ligeiramente. Baixa os olhos para a chávena de café.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Tudo o que te disse é verdade.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Eu sei, eu sei. Não estou a dizer o contrário. Não passou ninguém enquanto vocês fodiam?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Achas que reparei?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Ok, foi uma pergunta estúpida. E depois? Quando acabaram.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Depois foi super rápido. Separámo-nos e eu estava a puxar os calções para cima e a tentar pensar no que dizer quando ela se antecipou e desatou outra vez a correr na direcção do mar.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«E tu o que fizeste?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Eu fiquei parado feito parvo, pá. Lembro-me de pensar que devia ir atrás dela mas não fui. Acho que, subconscientemente, pensei que era melhor deixar as coisas assim. Vim-&lt;/span&gt;me embora.»&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Voltaste a vê-la?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Não.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Tens vontade?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Ergue os olhos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Ouve, isto não tem lógica nenhuma. A gaja pode ser casada, pode ser feia, pode gostar de música pimba, pode ter mil e um defeitos. Pode ser demasiado velha para mim, ou demasiado nova. Mas, ainda assim, sempre que vou correr ponho-me a olhar para todas as mulheres por quem passo, tentando perceber se é aquela e se por acaso não anda também a tentar encontrar-me.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«A vida nem sempre é lógica», digo, e durante um par de segundos fico a pensar como me irrita não conseguir evitar os lugares comuns. «Mas acho que deves encarar o que se passou como uma experiência. Uma experiência do caraças, diga-se de passagem. Eu não me importaria de que uma coisa assim me acontecesse. Acho que nenhum gajo heterossexual se importaria. No fundo, isso é uma fantasia masculina concretizada. Podia estar mesmo nas cartas da Penthouse»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Sorri. Empurra a chávena.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Até é um bocadinho pirosa», diz.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Não me parece.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Encolhe os ombros.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Seja como for, às vezes penso que não passou mesmo disso. De uma fantasia. Um sonho.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Não seria um mau sonho.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Porque, estás a ver, se tivesse sido verdade já a devia ter encontrado outra vez, não achas? Apesar de não sabermos bem o aspecto um do outro, já devíamos ter-nos cruzado e como é possível que não percebêssemos de imediato? Quer dizer, eu agora passo a vida a examinar as mulheres que correm naquela zona. Honestamente, acho que chego a assustar algumas. E já nem olho só para aquelas que me parece terem a estatura e a configuração física certa. Começo a duvidar das minhas próprias recordações, percebes?, e olho para quase todas, agora. Tento perceber se é possível que tenha sido aquele cabelo que agarrei (ela estava de rabo de cavalo, sabes) e aqueles lábios que beijei e aquele corpo... fiquei com a sensação de que ela tinha um rabo – não gordo, mas cheiinho. Assim um bocadinho para o largo. Mas entretanto comecei a pensar que quando estamos na cama com uma gaja magra – enfim, tirando aquelas mesmo muito, muito magras – e lhe apalpamos o rabo, ele acaba sempre por surpreender um bocadinho, por ter mais carne do que parecia, sabes?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Hã-hã.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«E então olho para as gajas todas, e para os rabos todos, e para os cabelos todos, e para gajas que me parecem mais baixas do que ela e mais altas do que ela. Enfim, olho para as gajas todas. E elas percebem, claro, e às vezes, quando estão gajos com elas, eles também percebem. Qualquer dia partem-me a cara.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Desiste.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Não consigo. Pelo menos para já.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Ouve, tu próprio o disseste: ela pode ser casada, ou ter cá estado pouco tempo, ou... sei lá, deve haver milhares de razões para não ter voltado a aparecer ou para andar a tentar passar despercebida. Pode ser freira. Pode ter engravidado.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Obrigadinho.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Desculpa. Sabes como eu sou. Mas acho que não deves fazer grandes filmes à volta dela. Tu próprio o disseste: não a conheces. Apenas fizeste sexo com ela.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Nem mais.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Faz sinal à empregada. Tira moedas do bolso enquanto ela se aproxima.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«É para pagar», diz. «Pode ser os dois.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Ei, não me vais pagar o café.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Esquece.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Coloca uma moeda de dois euros no tabuleiro. Enquanto a rapariga faz o troco, pergunto-lhe: «Diga-me uma coisa, Anabela, costuma fazer &lt;em&gt;jogging&lt;/em&gt;?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;César deita-me um olhar de advertência mas ignoro-o. Ela responde: «Não, não gosto de correr. Mas às vezes vou ao ginásio. Porquê?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Era só para saber. Tinha de haver uma razão para estar em tão boa forma.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Ela olha-me, desconfiada, mas acaba por sorrir. Um elogio é um elogio.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;César recolhe o troco e saímos para o passeio. A temperatura está amena mas a luz do Sol já só ilumina o topo dos prédios. &lt;/span&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Pergunto: «Vais-te embora ou ainda voltas ao escritório?»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;«Vou-me embora», diz. Sorri, encolhe ligeiramente os ombros. «Vou correr à beira-rio.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/8721.html</comments>
  <lj:replycount>7</lj:replycount>
  <category>contos do tamanho certo</category>
</item>
<item>
  <guid isPermaLink='true'>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/8548.html</guid>
  <pubDate>Fri, 13 Apr 2012 07:33:31 GMT</pubDate>
  <title>Osmose</title>
  <author>José António Abreu</author>
  <link>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/8548.html</link>
  <description>&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Georgia; font-size: small;&quot;&gt;Sempre o achei um tipo estranho. Na universidade tinha um quarto na mesma casa que eu mas era uma espécie de roda sobresselente no grupo em que eu me inseria. Teve um par de relações que não duraram. Fartava-se de falar no cão que os pais lhe haviam oferecido quando fizera doze anos – o canídeo mais inteligente do mundo, a acreditar nos relatos que nos impingia.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Georgia; font-size: small;&quot;&gt;Depois da universidade passei a vê-lo mais raramente. Ainda assim, morando na mesma cidade, encontramo-nos de vez em quando. Casou há menos de um ano. Contou-me que conheceu a mulher, Paula, quando o cão dele, filho do que mencionava na universidade, se interessou pela cadela dela. Paula era simpática mas tão estranha quanto ele. Parecia viver para a cadela. Na realidade, apesar de casados, ambos pareciam continuar a viver para os respectivos cães. Demorei algum tempo a perceber que apenas o entusiasmo dos cães um pelo outro os unira. Fora uma espécie de osmose. A atracção dos cães fizera com que se sentissem atraídos. Percebê-los excitados provocara a sua própria excitação. Observá-los a ter relações sexuais levara-os a tomar consciência de que também o desejavam fazer. Evidentemente, durou pouco. O cão dele engravidou uma cadela do prédio em frente e Paula reagiu mal. Disse-lhe: «Isto já não faz sentido.» Não constituiu um grande choque para ele. No fundo, estava de acordo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Georgia; font-size: small;&quot;&gt;Agora encontra-se todos os dias com o dono da cadela (passam imenso tempo a debater com quantos cachorrinhos cada um ficará e o que fazer com os restantes) e começa a sentir-se atraído por ele. «A verdade é que Paula nunca me completou. Bom, talvez no início. Mas depois… Sabes, começo seriamente a pensar que sou gay.»&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/8548.html</comments>
  <lj:replycount>2</lj:replycount>
  <category>microcontos</category>
</item>
<item>
  <guid isPermaLink='true'>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/8273.html</guid>
  <pubDate>Thu, 29 Mar 2012 12:42:56 GMT</pubDate>
  <title>O Sr. Marques (3) - Centro Comercial</title>
  <author>José António Abreu</author>
  <link>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/8273.html</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;O Sr. Marques aprecia centros comerciais. Raramente lá compra alguma coisa mas gosta de deambular pelos corredores e de sentar-se nas zonas de restauração, observando as pessoas. Na verdade, é mais as mulheres mas ele considera que está a observar «as pessoas». Às vezes pensa que o interior dos centros comerciais é o local onde melhor se analisa a vida moderna. Um local onde toda a gente se encontra no mesmo plano e pode cobiçar e tocar em milhares de coisas. A vida actual é feita de cobiça, pensa o Sr. Marques enquanto suspira perante a visão de uma mulher de traseiro empinado parada em frente à montra de uma sapataria, e os centros comerciais são o local onde ela pode ser expressa de forma mais subtil e democrática. São também um local onde exemplares díspares do ser humano podem ser vistos sem parecerem assim tão diferentes entre si. Hoje, por exemplo, o Sr. Marques ficou igualmente encantado ao ver uma quarentona de fato justo, saltos altos e colar de pérolas movendo-se em passo saracoteado e uma rapariga mal saída da adolescência com um vestido leve, umas botas pesadas e três &lt;em&gt;piercings&lt;/em&gt; no nariz esparramada num dos sofás. Há ambientes em que tanto uma como outra pareceriam deslocadas. Num centro comercial, ambas se podem sentir à vontade.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;O Sr. Marques encontra-se agora sentado na zona dos restaurantes, cansado de tanto raciocínio – mas não de observar as pessoas. Numa mesa próxima, uma pessoa do sexo feminino com cerca de vinte e cinco anos de idade troca mensagens no telemóvel. Veste uma blusa fina e decotada e um soutien que deve ser de um número abaixo do adequado porque lhe deixa um mamilo quase inteiramente à vista. O Sr. Marques olha e pondera se deve tentar não olhar. Procura também imaginar a reacção dela se, simpaticamente, a avisar do descuido. Está absorto a elaborar uma lista mental de prós e contras quando uma segunda mulher chega junto da primeira, se inclina para a beijar e, enquanto se senta, diz: «Tens a mama à mostra.» A outra encolhe os ombros. «Ora, sempre alegra a vida a alguns coitados.» Primeiro o Sr. Marques sente-se ofendido. Chega mesmo a pensar: «Cabra!» Mas depois percebe que a rapariga acaba de lhe dar autorização para continuar a olhar. E assim, já sem disfarces, o Sr. Marques deixa-se ficar entretido a olhar para o mamilo, que é largo e pouco saliente e está rodeado por uma auréola rosada e ligeiramente granulosa. A certa altura, o olhar dele cruza-se com o da rapariga e o Sr. Marques permite-se mesmo sorrir com descontracção. Só então ela parece incomodada. Empurra a mama para dentro do soutien, pega na mala com a mão que o telemóvel deixa livre e diz para a outra: «Olha, vamos mas é andando.» O Sr. Marques observa-lhe o movimento das ancas enquanto ela se afasta e depois fica lá, sorrindo de vez em quando ao relembrar o acontecimento.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/8273.html</comments>
  <lj:replycount>3</lj:replycount>
  <category>séries</category>
  <category>o sr. marques</category>
</item>
<item>
  <guid isPermaLink='true'>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/7989.html</guid>
  <pubDate>Sat, 17 Mar 2012 08:47:35 GMT</pubDate>
  <title>O Casulo (7/7)</title>
  <author>José António Abreu</author>
  <link>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/7989.html</link>
  <description>&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Não sei se sou um mentiroso excepcional, se as pessoas não prestam tanta atenção aos outros como estes julgam (ou, quando têm algo a esconder, receiam), se tivemos apenas imensa sorte. Ninguém pareceu suspeitar de nada. Apresentei a minha demissão três dias depois da morte de Patrícia. Houve esforços para me convencer a ficar, se não naquela unidade, pelo menos noutra fábrica do grupo, mas eu sabia não poder aceitar. Demasiadas pessoas, em Espanha e em Portugal, sabiam da existência de Patrícia. Mais cedo ou mais tarde, haveria perguntas. Por isso recusei permanecer na empresa e recusei dizer quem me tinha feito uma proposta melhor e no processo destruí todo o respeito que conquistara ao longo dos anos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Os momentos de tensão foram demasiado frequentes para que os descreva a todos. De certa forma, é mais correcto afirmar que existiu apenas um, contínuo, em que a intensidade do nosso medo flutuou mas nunca desapareceu. Era-nos impossível pensar noutra coisa — sei que posso falar por Susana — e quando o cérebro procurava escapar obrigávamo-lo a recentrar-se, a lembrar o que se passara e a situação em que nos encontrávamos. Permitir outros pensamentos parecia uma saída fácil, uma traição à memória de Patrícia.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;E, todavia, parece-me hoje que a maioria desses momentos de tensão nasceu dos nossos temores e não de ameaças reais.  O medo era real, a sensação de falsidade constante mas o nosso planeamento e a nossa execução acabaram por se revelar quase perfeitos. Tivemos sorte, logo de início, quando a mulher-a-dias telefonou a dizer que estava doente e não podia vir no dia em que estava previsto. Isso deu-nos um fim-de-semana. Queimámos parte da roupa de Patrícia na lareira e, na Segunda-Feira seguinte, dissemos-lhe que ela estava em Portugal, em casa dos avós. Quando os meus colegas de trabalho organizaram um jantar de despedida, decidimos que eu iria mas que Susana ficaria em casa (de qualquer modo, ela recusava-se a ir), o que permitiria evitar chamar a atenção para a ausência de Patrícia. Quando o meu pai fez sessenta anos, telefonei-lhe tarde (por muito que ele me achasse distante, seria estranho não lhe ligar) e, quando pediu para falar com Patrícia, expliquei-lhe que já estava a dormir. Dúzias de ocasiões como estas foram enfrentadas da melhor forma que conseguimos, sempre à espera de que algo corresse mal, sempre surpreendidos (mais eu, Susana pouco falava) quando, uma e outra vez, isso não sucedia. Podia descrevê-las em pormenor. Tornar aquelas duas semanas num filme de &lt;em&gt;suspense&lt;/em&gt; barato. Mas não o farei. Não tenho qualquer desejo de relembrar aqueles momentos. Foram – acabaram por ser – irrelevantes. Porém, sinto necessidade de salientar quão forte Susana teve de ser. Procurava não sair de casa e ter de enfrentar outras pessoas mas algum contacto era inevitável. As conversas com a empregada, por exemplo, exigiam-lhe um esforço titânico: lembro-me do sorriso desesperado que afixava quando um dia cheguei a casa e a mulher não parava de falar acerca da neta. Aproveitei para lhe dizer que não precisava de voltar, uma vez que estávamos a dias de regressar a Portugal. «Mas ainda falta uma semana», contrapôs. Expliquei-lhe que não valia a pena porque a casa iria estar uma confusão assim como assim e garanti-lhe que o mês lhe seria pago na totalidade. Passei os restantes dias temendo que ela houvesse desconfiado de alguma coisa mas, mais uma vez, nada aconteceu. As pessoas gostam de falar e estou convencido de que contou a muita gente como nós éramos estranhos mas não terá feito mais do que isso.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;No fim-de-semana antes de regressarmos a Portugal grelhei quase vinte quilos de carne de porco, cortada como se fosse fiambre. Permiti que as fatias ficassem bem esturricadas e desfi-las para dentro de um &lt;em&gt;tupperware&lt;/em&gt;. Foram estas cinzas que apresentámos às nossas famílias como sendo as de Patrícia (dentro de uma urna comprada numa funerária de Oviedo aquando do regresso).&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Fui verificar a sepultura todos os dias. Normalmente fazia-o depois de anoitecer mas, por vezes, também durante as horas de luz. Chegava junto do muro num passeio que tentava que parecesse casual, saltava para o lado de lá e subia a encosta como se estivesse a dar um passeio – como se estivesse a aproveitar os últimos dias para fixar os encantos do local na memória. Quando saltava do muro abaixo e, mais tarde, quando descia a encosta de regresso a casa, aproveitava para verificar se a zona de terra revolvida se notava muito. Notava-se imenso. Para tentar disfarçá-la, na terceira noite após o enterro cavei ao longo do muro, quatro ou cinco metros para cada lado da cova. Tinha esperanças de que cerca de uma dezena de metros de terra revolvida fizesse pensar que tinham andado ali a introduzir um tubo ou qualquer coisa do género mas, na realidade, não fazia. Não dando já ideia de uma sepultura, continuava a parecer estranho.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Susana nunca me perguntou onde enterrara Patrícia mas um dia, ao regressar da empresa, encontrei-a do lado de fora do muro, olhando para a zona de terra solta e escura. Tentei evitar pensar há quanto tempo lá estaria e se alguém a teria visto e levei-a para casa, caminhando ao longo do muro até à estrada com o meu braço direito em torno da cintura dela – como se passeássemos, esperava eu. Não falámos. Nessa época falávamos pouco. Todas as palavras se haviam tornado inadequadas.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Vinte e três dias após a morte de Patrícia deixámos Espanha.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Não sei o que vai acontecer. Não sei se alguma vez o corpo será descoberto. Mesmo que não seja, há pontas soltas: por exemplo, não temos certidão de óbito. De cada vez que ligo a televisão, folheio um jornal, respondo à campainha da porta ou abro a caixa do correio espero o pior. O mesmo acontece com Susana. Nos últimos dois anos a nossa vida tem sido tão confinada que é quase como estarmos na prisão. Mas estamos presos juntos e isso tem um valor inestimável. Dependemos um do outro mais que nunca. A nossa relação está indelevelmente marcada pela morte de Patrícia. Antes, havia uma componente de desespero mas agora essa componente é tão forte que chega a ser uma dor física. De cada vez que fazemos amor, dói-nos olhar nos olhos do outro. De certa forma, o nosso amor nunca esteve tão forte. Mas depender tanto dele esgota-nos, deixa-nos exaustos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Susana nunca se perdoou e suspeito que às vezes julga que a culpo pelo que aconteceu. A dor nos olhos dela durante o acto sexual é tanto expressão dos seus sentimentos por mim quanto um pedido de desculpa. Mas eu &lt;em&gt;perdoei-a&lt;/em&gt;. Totalmente. Sem restrições. É em mim que encontro razões para culpa. Por um lado, sinto que me alheei do crescimento de Patrícia e que recusei ver os indícios de que nem tudo estava bem (ou, pelo menos, agir sobre eles). Por outro, devido ao que sucedeu, às vezes sinto que tenho um ascendente sobre Susana. Que a consigo controlar. Não desejo isso. Somos iguais, como sempre no passado. A bofetada, demo-la juntos. O encobrimento, fizemo-lo juntos. Se alguma vez formos acusados do crime, somos ambos culpados.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Não tenho a certeza de estar arrependido do que fiz. Às vezes penso que sim, noutras acho que procedi da melhor forma possível. Julgo que a ideia de enterrar Patrícia me surgiu por acreditar – ou desejar acreditar – que, fazendo-o, poderíamos rapidamente passar por cima do que sucedera e seguir em frente. Foi um erro. O que fizemos, do início ao fim, é um fardo muito mais pesado. Devíamos ter chamado a polícia, explicado que fora um acidente, arcar com as consequências. Desta forma, ficou tudo dentro de nós – dentro de Susana, em particular. A exposição pública e um castigo – se chegasse a existir: a morte de Patrícia &lt;em&gt;foi&lt;/em&gt; um acidente – poderiam ter permitido uma expiação menos interior e mais eficaz. Mas, claro, o castigo poderia ter sido a prisão e a possibilidade de ser afastado de Susana, para mais sabendo-a a sofrer, continua a revelar-se-me insuportável.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Enfrentar famílias e conhecidos foi mais difícil do que esperávamos. Por muito que proclamassem não quererem forçar-nos a reviver o que acontecera, assaltaram-nos com pergunta após pergunta. Sempre que nos foi possível, evitámos responder. Isso desagradava-lhes. Deixava-os irritados. Como se tivéssemos que satisfazer curiosidades mórbidas. Como se tivéssemos uma qualquer espécie de dívida para com eles. Felizmente, o passado jogava a nosso favor. Sempre estivéramos à parte, sempre fôramos &lt;em&gt;outsiders&lt;/em&gt; que nunca haviam cedido a desejos de terceiros. Porque nos conheciam, todos acabavam por encolher os ombros e, por entre resmungos, deixar o assunto cair.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Encontrei um novo emprego menos de um mês após o regresso. Susana dizia-se incapaz de se concentrar e apenas retomou a actividade meio ano depois. Numa coincidência irónica e perturbadora, o primeiro livro que a editora lhe enviou para tradução era sobre como lidar com crianças.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Temos estado à espera. Podemos ter dias, podemos ter o resto das nossas vidas. Não dizer que tenhamos a vida em pausa porque, fora dos nossos cérebros, tudo está como gostaríamos que estivesse. Dispusemos de dois anos para nos habituarmos a viver de acordo com estas premissas e julgo que estávamos a conseguir fazê-lo. Esta nova mudança no rumo dos acontecimentos é totalmente inesperada.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Pouco depois de regressarmos sugeri fazer uma vasectomia. Discutimos o assunto e chegámos à conclusão de que era melhor mantermo-nos tão discretos quanto possível. Talvez mais tarde. Afinal, Susana tomava a pílula. &lt;em&gt;Toma&lt;/em&gt; a pílula. Algo correu terrivelmente mal.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: georgia,palatino; font-size: small;&quot;&gt;Susana continua a agarrar-me as mãos. Olha-me em silêncio. Olho-a também, tentando perceber se já tomou uma decisão. Apenas detecto medo e tristeza. Mudo a posição das nossas mãos, de modo a ser eu a segurar as delas. Inclino-me para a frente e beijo-a nos lábios. Estão frios e secos. Digo: «Amo-te» porque, independentemente do que viermos a dizer e a fazer, quero que isso fique claro.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description>
  <comments>https://amoremorteempequenasdoses.blogs.sapo.pt/7989.html</comments>
  <lj:replycount>0</lj:replycount>
  <category>contos demasiado longos para um blogue</category>
  <category>o casulo</category>
</item>
</channel>
</rss>
